O Caminho do Oxtornense
Will Dean se lembra: um capítulo escuro da LTL vem à luz!
Ciclo Mordred
19
O CAMINHO DO OXTORNENSE
POR
BEN CALVIN HARY
IMAGEM DA CAPA
RAIMUND PETER
Título Original:
Der Weg des Oxtorners
Tradução:
Dionisio Elvir Rudnick
Márcio Inácio Silva
Revisão:
Márcio Inácio Silva
Marcos Roberto
Formatação final para liberação no Projeto Traduções:
Márcio Inácio Silva
Capa em português
Manuel de Luques
Conversão para os formatos ePub, PDF e Mobi:
José Antonio
Publicação não comercial
O projeto Dorgon – ciclo Mordred – é uma publicação não comercial feita por fãs do Centro de fãs do PERRY RHODAN e. V., Rastatt (Tribunal Distrital de Mannheim, VR 520740) e representada por Nils Hirseland, Redder 15, 23730 Sierksdorf. Esta fanfic foi escrita por fãs para fãs da série PERRY RHODAN.
A tradução para o Português do Brasil é feita com autorização de Nils Hirseland.
Perry Rhodan®, Atlan®, Icho Tolot®, Reginald Bull® e Gucky ® são marcas registradas
Perry Rhodan KG, Rastatt, Alemanha (PR KG),
Star Sistemas e Projetos Gráficos Ltda., Belo Horizonte, Brasil
O ano é 1290 NCG. Todos os portadores de ativador celular estão, exceto Homer G. Adams, espalhados pela imensidão do espaço para lutar contra Shabazza e seu mestre. Então, repentinamente, a organização terrorista Mordred ataca diversas filiais de Camelot. Adams está profundamente perturbado e pouco pode fazer contra os ataques direcionados.
Em Mashratan, uma antiga colônia do Império Solar, os camelotianos, em cooperação com a LTL, conseguem infligir a primeira derrota a Mordred. Dois líderes do grupo terrorista estão mortos. Mas a organização terrorista não desistiu e abriu uma nova dimensão do terror com a destruição do mundo Sverigor, com mais de dois bilhões de seres vivos, cuja administração, por sua vez, planejava destruir a Humanidade.
O somerense Sam e o agente do STL, Will Dean, operam na BASE. Dean, sem saber, se depara com antigas memórias que revelam O CAMINHO DO OXTORNENSE...
Personagens principais
Sruel Allok Mok “Sam” – O rastro do terror leva o diplomata somerenses a serviço de Camelot à BASE.
Will Dean – O agente do STL se depara com antigas memórias.
Romano Nelder – O agente da Mordred é um fanático.
Sha-Hir-R’yar – A assassina da Mordred.
Sam Tyler e Japar – Os mercenários ajudam Sam.
Sco-Chii – Um corretor de informações.
Kellonda – Uma mehandor excêntrica.
1.
Aproximação da BASE
Órbita de Stiftermann III
Outono de 1290 NCG
— Que monte de sucata feia e enorme.
O terrano ao lado de Sam balançou a cabeça e fez uma careta ao ver o rosto barbudo. Ele apontou para a imagem tática de fora da área delimitada.
O olhar de Sam seguiu o dedo de Tyler; ele encarou o holograma. Seu bico se abriu ligeiramente.
— De fato, devo admitir, provavelmente é esse o caso — respondeu ele pensativamente, com sua habitual rigidez. O mercenário não estava errado, ele tinha que admitir isso. A pilha de sucata de que ele falava era um colosso desajeitado em forma de tartaruga, feito de aço terconite avermelhado, cercado por uma enorme protuberância em forma de anel – a BASE, que outrora foi a espaçonave de longo alcance mais poderosa da história da Humanidade. Uma remanescente de um grande passado.
Entretanto, ela havia sido desativada e flutuava imóvel no espaço em frente à balsa espacial automatizada de Stiftermann. Essa embarcação, por sua vez, havia se aproximado da gigantesca espaçonave a uma distância de algumas centenas de metros e estava reduzindo sua velocidade. A BASE, com suas incríveis dimensões de doze por quatorze quilômetros, já havia preenchido completamente o campo de visão da óptica normal, obscurecendo assim a visão do planeta Stiftermann III, em cuja órbita estava estacionada. Sem a representação em tamanho reduzido no visor tático, a nave já seria reconhecida há muito tempo apenas como um plano metálico infinito: uma superfície lisa até onde a vista alcançava.
— Como assim, provavelmente é assim mesmo? — resmungou Tyler. Ele passou o dedo casualmente pelo holograma, como se quisesse afastar a representação imaterial. — Você realmente acha isso bonito?
O homem sentado atrás dele riu. Era Japar, o mehandor. O amigo e parceiro mal-humorado de Tyler.
— Legal, não é? — concordou o ruivo. Ele encolheu os ombros largos, como que para se desculpar. — Mas ela sempre conduziu Rhodan e seus seguidores ao seu destino por muitos séculos.
— Hoje não. — Tyler ignorou a objeção do amigo, geralmente taciturno, com um gesto de mão. Ele deu um sorriso, mas era um sorriso cheio de desgosto. — Eles transformaram o lugar em um cassino. — Não é um fim digno para uma nave como esta. Você não acha?
— Nós, mehandors, valorizamos todas as oportunidades de gerar lucros. — Quão mais digno poderia ser o fim da BASE?
Sruel Allok Mok – Sam, como os Galácticos o chamavam – não conseguiu mais se conter. — Meu Deus, seus patifes! — exclamou ele, e uma gargalhada escapou de sua garganta, equivalente a uma risada humana. Ele abriu o bico novamente e mostrou a língua, divertido. Ele gostou dos dois lemúridas; gostou de como eles minimizaram a admiração que sentiam pela espaçonave histórica. Até ele, um somerense de outra galáxia, ficou impressionado com a coisa. Era impossível não se sentir minúsculo perto de tanto aço!
Seus companheiros se viraram para encará-lo. Tyler o encarou com um olhar sombrio. Ele pressionou as mãos sobre os ouvidos.
— O quê? — ele resmungou.
— Não, por favor, caro sr. Tyler!
O somerense acenou com a mão em sinal de desdém, um gesto conciliatório que aprendera com os humanos. Ele balançou a cabeça de pássaro para frente e para trás. Ele não estava com vontade de discutir. E, de qualquer forma, eles não eram exatamente camaradas agradáveis. Já que não o tinham deixado sozinho desde o encontro no Olimpo, certamente era melhor manter boas relações com eles. Ele decidiu mudar de assunto.
— Quão bem o senhor conhece essa saltadora que pretende nos acolher? — perguntou ele a Japar, dirigindo-se ao mehandor formalmente, como era seu costume. O homem a quem se dirigia a palavra franziu a testa e bagunçou a barba espessa com dedos desajeitados e grossos como salsichas. Seu olhar era vacilante e ele não respondeu. Sam fechou o bico com desaprovação, suas mandíbulas estalando.
— O senhor entrou em contato com essa senhora, que eu não conheço — ele se sentiu compelido a explicar sua pergunta. — Até agora, porém, tudo o que sei é que ela supostamente lhe deve um favor. — Mas até que ponto está disposto a confiar nela?
Japar se afastou resmungando, com o semblante fechado. Ele encarou o holograma principal. De repente, a estrutura externa da BASE pareceu interessá-lo muito — como se não houvesse nada mais emocionante do que a doca com um quilômetro de largura para a qual a balsa espacial estava se dirigindo. O somerense sabia que uma nave espacial da classe STARDUST já havia estado ancorada ali, uma nave auxiliar colossal com oitocentos metros de diâmetro. Hoje, essa baía em particular era reservada para os hóspedes mais ricos do cassino — ela oferecia acesso direto aos espaços reservados para a elite galáctica, como eram chamadas as suítes de luxo para a alta sociedade.
Aquela cena fez Sam refletir. A pessoa de contato deles parecia ter dinheiro ou, pelo menos, conexões influentes, já que podia oferecer-lhes essa doca gratuitamente: todo o sistema turístico em torno da BASE foi projetado para extrair o máximo de dinheiro possível de cada visitante antes mesmo de eles pisarem na antiga nave espacial da Humanidade. E a saltadora desconhecido sabia como burlar esse sistema. Sam achou isso perturbador. Com que círculos os dois mercenários o colocaram em contato?
— Sr. Japar?
O homem atarracado continuou sem responder. As penas de Sam se eriçaram; o descendente de pássaros estava perplexo. Apesar do tempo que passou com Perry Rhodan e os membros de seu povo, ele ainda não estava totalmente familiarizado com os costumes dos lemúridas. Por que o mehandor o evitou? Ele teria ultrapassado um limite, quebrado um tabu?
Tyler deu uma risada suave. — Você está reabrindo feridas antigas, Embaixador — respondeu o terrano. — Japar e a senhora são velhos amigos. — Ele viveu uma aventura com ela. Então ele deixou a velha senhora sentada esperando.
A maneira como Tyler enfatizou a palavra “aventura” fez com que Sam se endireitasse e prestasse atenção. O comportamento de acasalamento desses mamíferos inteligentes permaneceria para sempre estranho para ele, mas Sam tinha certeza de que devia ter sido uma aventura sexual. Imediatamente, uma imagem lhe veio à mente: dois humanoides ruivos, primeiro de mãos dadas, depois frente a frente em conflito.
Ele grasnou com raiva. As condições eram péssimas; Sam não podia se dar ao luxo de ter um de seus dois supostos guarda-costas distraído por uma antiga paixão.
— Podemos confiar nela? — repetiu ele impacientemente, desta vez dirigindo-se a Tyler. Ele acrescentou, sem jeito: — E, aliás, peço que me trate formalmente, como bem sabe, meu amigo terrano.
Tyler fez um gesto de desdém.
— A velha organizou o transporte para nós, não foi?
— Isso não prova nada. — Estamos aqui para coletar informações sobre a misteriosa organização Mordred. Preciso saber se a pessoa desconhecida possui conhecimento disso antes de corrermos o risco de confiar nela. E também que ela não nos traia para o inimigo.
— Ela conhece pessoas.
Naquele instante, o zumbido suave do propulsor de campo gravojet cessou e o casco da nave vibrou brevemente. O controle de pouso da BASE assumiu a manobra de acoplagem. Uma fenda brilhantemente iluminada se abriu na superfície da BASE sob a balsa espacial e foi se alargando gradualmente. As escotilhas da doca circular deslizaram para os lados com uma lentidão tranquila. Então, a balsa espacial em forma de cunha afundou no círculo, não passando de uma migalha microscópica voando por um buraco do tamanho de uma cratera lunar. Tal como montanhas, as laterais da balsa espacial elevavam-se para a esquerda e para a direita, crescendo cada vez mais, até que o planador parou no fundo do poço. O veículo deu um solavanco e, em seguida, tudo ficou em silêncio.
Sam suspirou a meia-voz. Eles haviam pousado na BASE. Até agora tudo bem. Agora ele estava à mercê de seus companheiros e de uma estranha. Ele conhecia os dois mercenários há pouco tempo. Se a confiança que eles depositavam nela era justificada, isso seria revelado.
O som bem modulado do sistema de sincronização integrado soou:
— Carregamento concluído. — Assim que o controle de pouso liberar a área, você poderá sair da balsa espacial. Foi criada uma atmosfera padrão de oxigênio, portanto não são necessários trajes espaciais. Após uma breve verificação de segurança, sua bagagem será levada para sua acomodação. Desejo-lhe uma estadia agradável a bordo da BASE.
Enquanto o sistema sintrônico recitava sua ladainha, como certamente fazia para cada visitante, Sam olhava pela janela da frente. Ele avistou uma figura a poucos metros de distância. Uma mulher de aparência rude: ombros largos, queixo largo, cabelos ruivos flamejantes na altura de um punho, vestida com um uniforme fantasioso e medalhas de plástico grosseiras. Uma mehandor, inconfundível. Só podia ser ela, a ex do Japar. Ela apareceu de repente em frente à balsa espacial, como se sempre tivesse estado ali. Agora ela caminhava em direção à pequena espaçonave com passos largos, o rosto contorcido numa expressão de determinação. De onde ela tinha surgido tão repentinamente? Será que ela estava se escondendo atrás de um campo defletor até agora? Começou de forma fantástica! Sam detestava esse segredo; geralmente era um mau presságio.
Ele sentiu um toque no ombro. Foi Tyler quem lhe deu um leve empurrão. Sam se abaixou e se livrou dele. Ele não gostava de ser tocado por humanos.
— Rápido, somerense. Sua... — ele se interrompeu quando Sam o olhou com desaprovação e se corrigiu: — A sua história. – O sr. ainda se lembra dela?
Sam imitou um aceno de cabeça humano. A lenda que o serviço de inteligência de Camelot havia criado para ele como disfarce provou ser inútil após uma análise mais detalhada. Tyler havia inventado uma nova versão, uma que se adequava ao seu personagem brutalizado: Sam não era mais um antropólogo interessado na história evolutiva dos povos da Via Láctea, mas um representante do complexo militar-industrial de Siom Som, que buscava mercados na Via Láctea para instrumentos abomináveis de assassinato em massa. Não é uma história agradável, até mesmo degradante para alguém com padrões morais tão elevados quanto ele. Mas Sam foi pragmático o suficiente para — como diziam os terranos — engolir o sapo se isso aumentasse suas chances de sucesso.
Sem dar mais atenção ao ornitoide, Tyler desapertou o cinto de segurança e saltou do assento anatômico. Ele tateou em busca do mecanismo abridor de porta; a eclusa da balsa espacial de Stiftermann deslizou silenciosamente para o lado. Ele saltou corajosamente para o campo aberto. As solas de suas botas bateram com força na superfície de aterrissagem de densidade molecular. A saltadora agora estava diante dele, com os braços estendidos em saudação, os lábios carnudos franzidos num beijo. Ela era enorme. Tyler, que não era anão, chegava apenas à altura das sobrancelhas dela. Rindo, ela abraçou o homem e lhe deu um beijo na bochecha. O terrano retribuiu o gesto, com relutância e má vontade, como se tivesse medo dela. Foi uma cena bizarra.
— Tyler — disse ela, com uma voz suave que parecia destoar de sua aparência. — Quanto tempo faz?
— Muito tempo, Kellonda — respondeu ele, sem se comprometer, e se afastou dela. Foi um tanto difícil para ele; o aperto dela em seus quadris era implacável. Finalmente, porém, ela o soltou; já fazia tempo que sua atenção estava voltada para a eclusa aberta. Seu olhar recaiu sobre Sam, primeiro curiosa, depois repentinamente desinteressada. Finalmente, ela viu Japar.
— Desça da minha balsa espacial, seu imprestável.
O saltador soltou um rosnado, passou pelo somerense e também entrou no corredor. A outra mulher se aproximou dele, envolvendo-o com os braços como um torno, apenas para empurrá-lo momentos depois e, sem aviso, desferir-lhe um tapa sonoro no rosto. O ataque pegou Japar de surpresa. Ele cambaleou para trás, suas pernas bateram na borda de entrada do planador e ele caiu sentado, agitando os braços. Seu queixo retraiu-se contra o peito, sua expressão contorcida em indignação.
A mulher chamada Kellonda ergueu as mãos para o ar, sua voz perdendo toda a suavidade:
— Sem um olá? Você ainda está deixando o terrano falar por você? — Ela suspirou e revirou os olhos exageradamente antes de continuar: — Vocês têm audácia! — Aparecer aqui! Depois de tudo...
— Muito obrigada — disse para Kellonda — pela sua ajuda — interrompeu Sam. Ele também já havia desapertado o cinto e se posicionou atrás do saltador sentado. Ele já não aguentava mais. Ele daria um fim a esse comportamento teatral de cortejo, ali mesmo e agora. A missão era séria demais. Ele tentou ser educado:
— Seu amigo Japar me garantiu que você lhe devia um favor. — Eu não sabia que vocês tinham um passado desagradável. Peço desculpas por qualquer inconveniente causado.
Kellonda o observou com um olhar vago, como se o estivesse vendo pela primeira vez. Por fim, ela fez uma careta. Como que por vontade própria, seus dedos vagaram até a região do peito de seu uniforme de fantasia, brincando com uma das medalhas de plástico sem graça.
— Quem é aquele pássaro? — exclamou ela. Então, como se tivesse acabado de ter a ideia, deu um tapa na testa com a palma da mão. — Seu amigo somerense. — O traficante de armas. Bem-vindo a bordo da BASE.
Ela pegou Japar pela mão, ajudou-o a levantar-se e deu-lhe umas palmadinhas nas costas. Então ela se virou para o somerense, com as bochechas coradas. Ela ofereceu-lhe a mão. — Os amigos de Tyler e Japar são... bem, digamos que os mehandors estão sempre dispostos a um bom negócio. — Como posso te ajudar, somerense?
Sam retribuiu o gesto, mas sem muita convicção. Ele ainda não sabia o que pensar daquela mulher; ela lhe parecia imprevisível. Seria melhor para ele ficar de olho nela.
— Sruel Allok Mok está buscando novos mercados para sua linha de produtos — respondeu Tyler em nome dele, como se temesse que o somerense pudesse revelar o segredo. — Ele nos procurou em busca de contatos. — Contatos relevantes.
As sobrancelhas de Kellonda se ergueram.
— Então. E o que te traz a mim, dentre todas as pessoas?
Ela se virou abruptamente e saiu da plataforma de pouso. Japar e Tyler trocaram um olhar rápido, cada um dando de ombros brevemente, e seguiram a ruiva. Sam fez o mesmo.
Ela atravessou o corredor apressadamente, quase correndo. Japar e Tyler apressaram-se para ficar ao lado dela, tentando não ficar para trás. O próprio Sam não teve dificuldade em acompanhar o ritmo; suas pernas de ave corredora eram feitas para esse ritmo.
— Ouvi alguns rumores — começou ele —, rumores sobre uma organização que supostamente mantém uma filial na BASE.
— Muitas organizações fazem isso. — É improvável que alguma delas tenha interesse em armas de destruição em massa.
— Esta, porém, sim.
Eles se aproximaram de um veículo pequeno, mais parecido com um carrinho de bagagem do que com um meio de transporte de pessoas. Kellonda apertou seu corpo avantajado atrás de um console de controle que facilmente poderia ser confundido com um brinquedo infantil e, com um sorriso desafiador, deu um tapinha na almofada do assento à sua direita.
— Meu assento à esquerda está livre, eu gostaria que Sruel Allok Mok viesse.
Sam passou a mão pelas penas da cabeça, hesitante. Só então ele atendeu ao pedido. E foi isso; ele não aprendeu nada com Kellonda. Ele não tinha clareza sobre o papel dela. Ela tinha dívidas com algum líder de clã? Será que ela era uma das poucas matriarcas, e será que agiu em benefício próprio? Ele não gostava de nada daquilo; a situação estava cada vez mais saindo do seu controle. Ele deveria ter continuado de acordo com o plano que os homens de Homer G. Adams haviam elaborado! Nunca se torne dependente de alguém cujas motivações você não consegue decifrar, um sábio educador em Somatri já lhe havia ensinado.
“Afinal de contas”, pensou ele, enquanto se apertava ao lado da saltadora e Tyler e Japar se espremiam no pequeno banco traseiro do veículo. “Você despertou o interesse dela.” Por que mais ela teria insistido em tê-lo no banco da frente ao lado dela?
Kellonda arrancou em alta velocidade. Ela dirigiu em direção a um portão no final da plataforma de carga, dirigindo em zigue-zague como se estivesse bêbada. Sam era jogado de um lado para o outro; às vezes a gravidade quase o derrubava do assento, outras vezes ele era arremessado contra o braço enorme de Kellonda. O vento bagunçou sua barba macia. Suas mãos de três dedos seguravam firmemente a maçaneta, e pelo canto do olho ele viu os rostos tensos e pálidos de seus dois companheiros.
— Bem, Japar — começou a ruiva, olhando por cima do ombro para o ex, sem prestar atenção à estrada à frente. — Parece que você está me apresentando uma boa oportunidade de negócio. — Aparentemente, posso te perdoar, seu cabeça-dura infiel.
— Que bom ouvir isso — conseguiu dizer o saltador entre dentes cerrados, depois apertou os olhos e apontou para um robô descarregador em direção ao qual Kellonda corria. Rindo, ela se virou e desviou da máquina por pouco. Em seguida, ela deu um tapinha no joelho ossudo do somerense.
— Por uma taxa de corretagem — ela disse com voz melodiosa enquanto o veículo passava pela escotilha e disparava para um corredor retangular —, farei qualquer contato que você precisar, querido. Qual organização...
— Mordred — interrompeu Sam, sem se dar ao trabalho de pedir que ela o tratasse com o tratamento formal. — A senhora já ouviu falar deles?
Kellonda freou tão bruscamente que Tyler foi arremessado por trás contra a coluna de Sam. O terrano praguejou, mas Sam o ignorou. Ele observou atentamente a mulher enquanto ela, com a mão no queixo em uma pose pensativa, parecia estar ponderando sobre algo.
— Mordred — ela repetiu, prolongando as palavras com a voz, a expressão indefinida. Então ela balançou a cabeça negativamente; quase parecia que estava com calafrios. — Nunca ouvi falar disso.
Sam apertou o bico. Ele já suspeitava disso! A estranha saltadora não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo. Ou isso, ou ela tinha um motivo para esconder a verdade dele.
Kellonda acelerou novamente e, pouco depois, o carro passou pela BASE em velocidade máxima mais uma vez. Pelo menos ela não estava mais dirigindo em zigue-zague, graças a ESTARTU. O corredor em que entraram era estreito demais para isso, e havia também transeuntes aqui e ali: um cheborparnense que se encostou na parede com medo enquanto o carro passava em alta velocidade por ele. Um aconense se virou surpreso. Um humanoide felino saltou para um local seguro enquanto Sam soltava um grito de alerta, e então Kellonda contornou uma eclusa gravitacional. Sam perdeu de vista o ser de aspecto felino. De repente, o chão desapareceu sob seus pés e o veículo ficou suspenso no ar. Por um segundo, pareceu uma queda, mas então o campo gravitacional recém-polarizado os envolveu suavemente. De repente, o que estava embaixo era a frente e o que estava atrás era embaixo. Foram necessários alguns instantes para que o senso de equilíbrio se ajustasse à nova realidade. Então os pneus tocaram o solo novamente, e ouviu-se um breve guincho. O cheiro de borracha queimada invadiu as narinas de Sam com força. Tremendo, ele apertou ainda mais o corrimão, e a viagem alucinante continuou.
— Mulher! — Vou vomitar — protestou Japar, dando um tapinha no ombro de Kellonda por trás. Ele estava com um ar piegas, como Sam percebeu, seus olhos estavam vidrados. Kellonda sorriu.
— Eu sei.
O somerense bateu o bico em sinal de desaprovação. Será que essa montanha-russa insana tinha como único objetivo fazer o saltador vomitar? Kellonda tinha a intenção de expor seu ex-namorado? Que infantilidade!
— Com todo o respeito, estimada Kellonda — tentou ele novamente —, fui informado de que você tem contatos com certos círculos que...
— Sco-Chii! — gritou a ruiva de repente, dando um tapa no peito largo de Sam com a mão aberta. Ele ficou em silêncio, assustado. — Sim, Sco-Chii!
— Deus te abençoe — disse Tyler, com malícia. Kellonda deu uma risadinha enquanto conduzia o carro em direção a outra eclusa gravitacional. Dessa vez, parecia que eles estavam correndo em direção a uma parede; o chão se curvava em um ângulo reto à frente deles. O estômago de Sam revirou novamente quando o mecanismo do dispositivo antigravitacional o agarrou e girou o carro noventa graus. Japar engasgou, a voz embargada.
— Vou te apresentar ao Sco-Chii. Ele é um corretor de informações. Se alguém sabe alguma coisa sobre a sua Mord-bett, é ele.
— Mordred — corrigiu Sam, enfaticamente. — E eu não gosto disso. —Quero manter o círculo de confidentes o mais restrito possível.
— Tão misterioso, não é?
Kellonda finalmente diminuiu a velocidade ao entrar em um corredor. Deve ter sido outrora um pequeno arboreto, como comprovam os canteiros e algumas plantações nas paredes. Os novos donos da BASE transformaram o local em um bazar: os frequentadores do cassino estavam por toda parte, sentados bebendo e conversando nos bares ou passeando pelas barracas onde um gordo mehandor tentava vender-lhes bugigangas brilhantes e artigos de luxo. Alguns anunciavam seus produtos em voz alta, como antigos vendedores ambulantes nos mercados de Som — cânticos religiosos em um templo dedicado à divindade que os saltadores mais veneravam: o comércio.
Kellonda parou em frente a uma escada estreita. A escadaria dava acesso a uma galeria da qual partiam vários corredores. A ruiva apontou para uma delas.
— Sua suíte fica lá em cima. — Não se preocupe, está tudo pago. Kellonda cuida dos seus hóspedes. Sua bagagem será levada até você.
— Obrigado — respondeu Sam. — Quanto a esse corretor de informações...
— Não se preocupe — ela o interrompeu e saltou do banco do motorista. — Se existe algo interessante sobre você, Sco-Chii já sabe. — Ele tem olhos e ouvidos em todos os lugares.
— Tenho certeza disso — respondeu Sam com um resmungo desdenhoso. Ele colocou o pé no chão e, com cuidado, saiu do carrinho. Seus joelhos tremiam; aquela viagem deixaria marcas em seus ossos por algum tempo. — Mas será que ele é confiável?
— Sco-Chii? — Kellonda ergueu as sobrancelhas e deu tapas nas bochechas com as duas mãos, olhando para ele, ofendida. — A discrição de Sco-Chii é irrepreensível — continuou a saltadora, acrescentando com um sorriso: — Desde que se possa pagar por isso.
Na manhã seguinte
Will Dean abriu bem os olhos e ficou olhando para o teto. Sonolento, ele esfregou a testa e piscou.
— Onde diabos...
Então ele se lembrou. “A garota!”
Will se jogou para o lado, girando as mechas de cabelo artificial em torno de si. Eles se depararam com o corpo nu de uma mulher. Meio coberta por um cobertor, ela jazia ali, dormindo de lado. Seus seios pontiagudos se projetavam em sua direção como pequenas colinas. O terrano prendeu a respiração.
De repente, o resto de sua memória também retornou. Sua ridícula tarefa insignificante, que o STL o obrigou a realizar. Ele deveria descobri-la, essa desertora, sob o nome de Wes Golem e com esse disfarce ridículo. Eles deveriam colocar um inseto na pele dela, uma obra-prima da microtecnologia siganesa. Seus superiores ainda confiavam nele para fazer isso, depois de toda a confusão que ele havia causado.
“E mesmo nisso eu falhei”, pensou ele amargamente. Gia de Moleon tinha razão, o julgamento do chefe desaparecido do STL sobre ele estava correto: em nenhum lugar de suas ordens constava que ele deveria dormir com Celine Ahornd. Ele deixou seu olhar percorrer o corpo dela, demorando-se brevemente em seu peito, que subia e descia lentamente, em seus quadris estreitos, e finalmente se perdeu entre suas pernas. Sim, ela valeu a pena. Cada minuto com ela. “Além disso”, ele pensou consigo mesmo, “o sexo era a maneira mais rápida de se aproximar dela o suficiente.” Talvez seja exatamente por isso que ele foi escolhido para essa tarefa. Devido à sua reputação duvidosa.
Ele suspirou silenciosamente, mordendo o lábio inferior. Ainda não era tarde demais para cumprir a ordem. Ela estava perto dele, nua e indefesa. Ele jamais teria uma oportunidade melhor.
Com cuidado para não a acordar, ele saiu da cama e começou a juntar as roupas que estavam espalhadas pelo quarto. Enquanto tirava as calças de lazer da mesa de centro e as vestia, ele enfiou a mão no bolso. Dentro havia uma pequena bola, não maior que uma ervilha, e dentro dela estava o inseto. Ele a segurou com a ponta dos dedos e voltou para a cama na ponta dos pés.
Naquele instante, Celine gemeu, como se estivesse vivendo um sonho vívido. Ela se espreguiçou e esfregou os pés um no outro. Will levou um susto; ele congelou no meio do movimento. Se ela acordasse agora, ele poderia considerar a missão um fracasso.
— Wes — ela murmurou, ou, pelo menos, ele achou que tinha entendido. Ela simplesmente fez algum tipo de barulho. Isso deve ter sido de arrepiar os cabelos!
Ele teve sorte. A mulher não acordou. Enquanto dormia, ela se virava parcialmente de costas e se agarrava ao cobertor com a mão direita. Ela estendeu a outra mão na direção de onde ele estivera deitado. Will respirou aliviado. Então, ele deu os passos restantes de volta até a beira da cama dela e se ajoelhou ao lado dela. Sua respiração roçou o braço dela, e uma sensação quente percorreu seu corpo enquanto os pelos da pele dela se eriçavam. Aquela visão despertou algo nele; ele sentiu o sangue correr para a parte inferior do corpo. Ele sorriu, com a sua determinação vacilando. Que mal poderia haver se ele voltasse para a cama dela mais uma vez, só para mais uma rodada com ela...
“Mantenha a calma!”, repreendeu a si mesmo. Havia muita coisa em jogo. Um único erro desse tipo por trabalho já era suficiente. Dessa vez, ele controlaria seus impulsos, e não o contrário.
Sem hesitar, ele esmagou o projétil e colocou os restos em seu braço. A camada proteica programada se dissolveu imediatamente, revelando uma pequena migalha preta. O bug em si. Will Dean observava, fascinado, enquanto o dispositivo deslizava alguns milímetros sobre a pele dela até encontrar um poro. Então, literalmente, a substância penetrou em seu corpo.
O terrano se levantou; ele estava satisfeito. Sua missão estava praticamente concluída. O resto seria feito quase inteiramente por essa praga biossintrônica — ela se aninharia em seu corpo como um parasita e então funcionaria como um microfone sem fio nanoscópico. Com a ajuda dele, o STL seria capaz de espionar a desertora.
Ele rapidamente recolheu as roupas restantes e saiu da suíte dos hóspedes adormecidos; sua partida foi equivalente a uma fuga. Assim que a porta se fechou atrás dele, ele calçou as meias e os sapatos no corredor. Então ele desceu o corredor apressadamente. Enquanto caminhava, abotoou a camisa, tentando evitar os olhares curiosos de dois transeuntes. Ele desviou de uma arcônida mais velha, apenas para se chocar em cheio contra o peito de um superpesado momentos depois. O estranho resmungou irritado, Will murmurou um pedido de desculpas seco e circulou o corpo quase quadrado do homem adaptado ao ambiente sem olhar em seu rosto. Não chame a atenção! Bastou que ele tivesse atraído a atenção dos frequentadores do cassino ontem, enquanto seduzia a pessoa-alvo para dentro da cabine. Seu charme não se baseava em gestos sutis.
Ao virar para um corredor lateral, ele lançou um olhar discreto para trás. Ele fez uma pausa. Algo estava errado – lá estava a mulher arcônida, a quem ele quase atropelara, e lá estavam os dois curiosos que passavam por ali. “Onde foi parar o superpesado?”, perguntou-se ele. “Se ele foi à suíte de Celine Ahornd...”
“Não tenho tempo”, disse a si mesmo, tentando recuperar a compostura. O dispositivo de escuta ainda precisava ser ativado remotamente; ele tinha vinte minutos para fazê-lo. Se nada acontecesse durante esse período, o nanomicrofone se dissolveria por precaução, e o esforço teria sido em vão. Ele certamente não teria permissão para passar uma segunda noite com a desertora.
O caminho até sua suíte o levou por meio de duas esteiras rolantes e um elevador antigravitacional; ele levou quinze minutos para chegar à entrada. Assim que a porta se fechou atrás dele com um som abafado, ele correu para sua bolsa de remédios. Dean rapidamente pegou a seringa contendo o soro ara e o injetou. O efeito foi imediato: os dreadlocks caíram, revelando seu cabelo curto e encaracolado. A máscara genética literalmente caiu.
— Ao se apresentar para o serviço, o agente Wes Golem faleceu em serviço — disse ele para a sala, sem se dirigir a ninguém em particular. Essa fantasia ridícula, essa figura tola, deixaria de existir aqui e agora. A partir daquele momento, ele voltava a ser Will Dean, agente do Serviço da Liga Terrana, embora no posto mais baixo imaginável. Ele não esperava tratamento especial, mas não se faria de tolo por causa deles novamente.
Aliviado, Will sentou-se à mesa espartana do hotel — sua acomodação não era nem de longe tão requintada quanto a do traidor — e procurou um pequeno dispositivo na mala de viagem que havia colocado ao lado. Ao abri-lo, ouviu-se um breve estalo; um ruído estrondoso emanou de campos sonoros invisíveis. Em seguida, um sinal sonoro; o receptor havia estabelecido contato com a nanossonda e a gravação começou automaticamente. Will respirou aliviado. Isso resolveu a questão. Ele fecharia o aparelho, arrumaria suas coisas e partiria o mais rápido possível. Voltaria para Terra, para seu pequeno apartamento e...
— Pfork? — veio uma voz abafada do receptor. A voz de Celine. Will escutou atentamente, prendendo a respiração mais uma vez. O edredom farfalhou e, em seguida, ouviu-se o ruído de passos pesados. Alguém estava hospedado com ela, sem dúvida. Um homem desconhecido, cujo nome sugere que ele é extremamente corpulento. Talvez o estranho com quem ele tivesse esbarrado no corredor? Will cerrou os dentes.
— Vista-se, Celine Ahornd — disse uma segunda voz, profunda e ressonante. — Você se esqueceu da nossa reunião? — Estou aqui por causa dos dados. Não por causa do seu corpo. — Excepcionalmente.
— Sim. — Sim, claro — respondeu Celine primeiro, atordoada, depois tomada por um súbito pânico. Outro som de farfalhar pôde ser ouvido. Will imaginou a traidora se virando, procurando por Wes Golem, sua conquista da noite anterior. Então ele a ouviu suspirar de alívio antes que ela continuasse: — Era tarde ontem.
— O Cristal. — Vamos acabar logo com isso; minha presença aqui já me compromete o suficiente.
— O dinheiro.
— Assim que os dados estiverem em minhas mãos.
Will colocou o aparelho na mesinha à sua frente e, balançando a cabeça, afundou na almofada do assento. “Cristal? Dados?” Ele entendia cada vez menos. Ele não havia sido informado dos detalhes do contrato no STL — presumivelmente para que não revelasse nada. Mais uma prova de quão pouca confiança ainda tinham nele. Ele era um mensageiro, nada mais. Certamente não era assim que ele havia imaginado sua carreira no serviço de inteligência.
Nos segundos seguintes, um ruído emanou do receptor; o terrano só pôde presumir que a desertora saltou da cama naquele instante, vestiu-se às pressas e vasculhou seu quarto em busca do cristal onde os dados poderiam estar localizados — presumivelmente, ela estava vendendo alguma informação secreta sobre o STL para alguns terroristas. Ele não viu motivo para intervir. Seja lá o que Celine Ahornd tivesse roubado, pelo menos era do seu conhecimento que estava desatualizado e inútil para qualquer pessoa que pusesse as mãos naquilo. Ela era a isca. Seus superiores provavelmente não estavam interessados em Ahornd, apenas em seus contatos. E esse contato devia ser esse tal de Fork.
— Ah! — exclamou o descendente de saltadores. — Você não tem ideia do que este... presente significa para mim.
Ahornd deu uma risadinha alegre, quase como uma colegial. Não agradou à deusa que se sentara sobre ele na noite anterior, cavalgando-o como um garanhão. Ele afastou a lembrança. Não importava. Wes Golem estava morto.
— Seu ingresso para os escalões de liderança dos Guardiões Galácticos? Não, não sei nada sobre isso. — Breve pausa. Então: — Não tenha medo. — Seu segredo está a salvo comigo. E quanto ao meu corpo...
Will Dean riu. Qual era o objetivo disso? Por que ela disse isso? Será que ela queria induzir o superpesado a uma falsa sensação de segurança com uma proposta inequívoca? De repente, sentiu um gosto amargo na boca; sentiu-se desvalorizado e explorado. Aquela vadiazinha mentirosa, ela se venderia para qualquer um que oferecesse o suficiente. Provavelmente, a noite que passaram juntos não significou nada para ela.
Naquele mesmo instante, o caos se instaurou na suíte de Ahornd, ou, pelo menos, foi o que pareceu. Um novo ruído emanou do minúsculo campo acústico: primeiro um estrondo, como se alguém tivesse arrombado uma porta de madeira. Em seguida, vozes abafadas e uma comoção, como uma briga. Alguém disparou uma arma; Will reconheceu o chiado de um paralisador. Algo caiu no chão; houve um impacto surdo e pesado. O superpesado? O atirador deve tê-lo dominado, porque Celine ainda estava consciente. Ela gritou, um grito agudo e excitado.
— Mas que... — gritou o terrano, apoiando-se no tampo da mesa. Ele deveria intervir agora? Correndo de volta para seus aposentos? Ajudá-la, salvá-la? Teria sido a coisa mais humana a se fazer. Mas algo o impedia – uma estranha sensação de peso que o detinha.
“Essa vadia”, pensou ele. “A culpa é sua.” Era da conta dele com que tipo de pessoas ela se associava?
— Continue deitada, mulher.
Aquela era uma voz nova, a de um jovem — tinha que ser a do intruso. Havia raiva nas palavras, e algo mais também. Um zelo ardente e imprevisível. Um sinal de alerta soou dentro de Will. Quem quer que fosse o estranho, o que quer que ele quisesse, seu humor não era um bom presságio. Ele pode estar disposto a ir a extremos. “Um fanático.” Durante seu treinamento básico na Lua, Will ao menos prestou atenção o suficiente para reconhecer essas pessoas por suas vozes incorpóreas.
— Quem são...
Celine não teve chance de terminar sua pergunta. Algo zumbia e crepitava, como uma clava elétrica. Então, outro estrondo, o som de um segundo corpo caindo. Os pelos de Will se eriçaram, ele tapou os ouvidos, recusando-se a pensar mais sobre o que devia estar acontecendo. Ele pressentiu o grito de Celine mais do que o ouviu. Suas pernas se contraíram; mais uma vez ele estava prestes a se levantar e correr em seu auxílio. E, mais uma vez, ele falhou.
“Eles não vão matá-los”, consolou-se. Presumivelmente, o estranho era um concorrente de Pfork que queria essas informações do STL para si próprio. Ele precisaria da Celine para isso. Ela não corria perigo grave.
— Seus lamentos não vão te salvar, vadia — repetiu a voz do estranho. Dessa vez, ela transbordava orgulho, como se o estranho estivesse embriagado pelo poder que exercia sobre suas vítimas.
— Porque...
Novamente zumbiu, descargas elétricas percorreram o corpo de Celine — Will reconheceu o som do receptor; os choques elétricos estavam interrompendo a transmissão. Será que a sonda aguentaria isso?
— Cale-se, mulher. — Ninguém jamais resistiu ao yekjab de um guarda Vhrato. — Eu expulsarei a Mirona Negra de você.
Mais chiados, mais batidas. A transmissão foi interrompida novamente; o grito da antiga agente do STL saiu do receptor de forma entrecortada e distorcida. Entretanto, os pensamentos de Will corriam, detalhes de muito tempo atrás vinham à mente — daquela época, quando ele ainda era um cadete esperançoso e Stewart Landry havia sido seu mentor. “Yekjab, um tipo de arma de eletrochoque. Utilizado para disciplinar animais, crianças e mulheres.” Ele havia lido isso em arquivos secretos, em um documento intitulado ‘Conspiração Lemúria’. Na época, isso era uma violação das regras que lhe custou o futuro e o condenou a uma via deslizante de nível inferior. As outras expressões também estavam lá: “guardiões de Vhrato. A Mirona Negra.” Esses eram termos da religião dos mashratanos, um povo de antigos colonizadores terranos que havia estabelecido uma sangrenta ditadura religiosa e militar sob os olhares da LTL. O homem desconhecido devia, portanto, ser mashratano. “Mas um guardião de Vhrato nos Guardiões Galácticos?” Isso não fazia sentido nenhum.
A curiosidade de Will aumentou. O impulso de salvar Celine havia desaparecido. Se ele invadisse a suíte e interrompesse a apresentação, jamais saberia o que estava acontecendo. “E de qualquer forma”, repetia para si mesmo: “nada de ruim vai acontecer com ela.”
Zumbido, chiado, estalo. Zumbidos, chiados, batidas, repetidamente interrompidos por interferências no sinal de rádio e gritos entrecortados e fragmentados. Will escutou por vários minutos, repetindo para si mesmo que poderia intervir a qualquer momento, caso a situação o exigisse. Ele não se mexeu quando o estranho exigiu em voz alta: — O cristal. — Ele não reagiu quando ele ameaçou queimar seus seios com o yekjab. Mesmo quando ele disse algo como: — Queimar a cara daquele gordo foi um dos castigos mais leves que o yekjab me qualifica a aplicar — ele queria considerar isso uma ameaça vazia. Ele lutou obstinadamente contra a parte de si que ainda queria intervir, para salvar a vida da desertora. “Será que o STL teria me enviado essa mensagem especificamente se houvesse um perigo real?”
— Pfork o pegou! — O cristal. Leve-o, seu louco!
— Finalmente! — Will se ouviu gritar. A tensão se dissipou; só agora ele percebeu que estivera completamente tenso. Ela havia cedido e, em meio à dor e provavelmente também ao medo da morte, entregou ao invasor o que ele exigia. Ele afundou de volta na almofada. É impensável o que teria acontecido se ela tivesse sacrificado a própria vida por esses dados inúteis e por essa coisa feia e acima do peso!
Mas Will estava enganado. Ainda não tinha acabado. O yekjab ferveu pela enésima vez. Gritos ainda mais intensos vinham do receptor; parecia interminável. Will Dean sabia, naquele momento, no máximo, que estava se enganando. O estranho a mataria agora que havia alcançado seu objetivo e não tinha mais utilidade para ela.
— Pare com isso, seu louco! — gritou ele para o aparelho. Ele se levantou, agarrou o telefone e o sacudiu, com o rosto contorcido em uma careta insana. O sangue subiu-lhe às bochechas. — Você conseguiu o que queria, deixe-a ir!
— Nelder!
Will fez uma pausa, com o receptor a poucos centímetros de sua orelha direita. “Mais um intruso!” Dessa vez era uma mulher, ou, pelo menos, a nova voz parecia feminina. O zumbido do yekjab silenciou. Então o fanático gritou:
— Você chegou tarde demais, Shahira. — Você perdeu o ponto de encontro, você...
— Modere o tom de voz. — Fui impedida de passar... uma saltadora quase me atropelou.
A mulher permaneceu em silêncio, presumivelmente olhando ao redor da suíte devastada. Então ela acrescentou: — O que está acontecendo aqui?
O tom era exigente, vindo de alguém que claramente estava acostumado a dar ordens. O fanático — Nelder, como a estranha o havia chamado — não respondeu. Em vez disso, ele emitiu um ruído indefinível.
A esperança despertou em Will. Talvez não fosse tarde demais; talvez ainda houvesse esperança para Celine. Era impensável o que poderia ter acontecido se o mashratano tivesse cumprido sua ameaça e atacado seus seios perfeitos e brancos... ele colocou o receptor de volta à sua frente, batendo o pé nervosamente.
— Isto é Pfork? — perguntou o estranho. Ela deve ter se aproximado do homem paralisado, porque sua voz parecia abafada e mais baixa do que antes. O mashratano deu uma risadinha.
— O que sobrou dele — disse ele maliciosamente. — Gostou da maquiagem permanente que fiz nele?
— O rosto dele! — Isso é...
— Uma melhoria, na minha opinião.
Will sentiu como se o chão estivesse sendo puxado debaixo de seus pés; seus joelhos fraquejaram. Então era verdade, ele não tinha simplesmente inventado aquilo. Este Nelder não apenas flertou com a brutalidade; ele realmente queimou o rosto do superpesado. Ele afundou pesadamente na almofada do assento. Ele sentiu náuseas. “Celine...!”
— Seu tolo. Você matou o homem.
— Ele não nos era útil.
“Celine. Celine”, Will pensava repetidamente. A conversa entre os dois estranhos tornou-se cada vez menos importante; ele só se preocupava com a desertora, seus quadris e o perigo que corriam. Ele calculou rapidamente as distâncias: eram quinze minutos até a suíte dela. Dez se ele se apressasse, cinco se ele ignorasse a cautela e percorresse os corredores com o dispositivo antigravitacional. Se ele partisse imediatamente, poderia salvá-la.
— Ele, sim — respondeu a mulher. — Mas não os Guardiões Galácticos. — O superpesado teria sido o nosso ponto de contato. Você estragou tudo, Romano Nelder, colocou toda a missão em risco com seu sadismo.
“Ela o repreendeu.” Will se obrigou a se acalmar e respirou fundo várias vezes.
— Está tudo bem — disse ele em voz alta, como que para confortar a desertora. Essa desconhecida chamada Shahira pareceu razoável. Independentemente de a que clube sinistro os dois pertencessem, pelo menos ela não era uma assassina.
— E ela? — ele ouviu a voz de Shahira, desta vez mais perto e mais alta. Ela provavelmente estava parada bem na frente da Celine naquele momento. — Por que ela não fica sossegada?
“Não ficava sossegada?” Will ouviu. “De fato!” Só agora ele percebeu o gemido dela; sua consciência o havia bloqueado anteriormente. E então a ficha caiu: não havia gritos de dor, nem lamentos. Estava balbuciando. Algo que uma pessoa com deficiência mental grave poderia exclamar.
— Seu porco — ele murmurou a meia-voz, cerrando o punho. — O que você fez com ela?
— Eu não fiz isso, foi meu yekjab — disse o homem chamado Nelder naquele momento, quase como se tivesse ouvido Will e lhe respondido. — Ela era obcecada pela Mirona Negra. — Como todas as mulheres. Eu os expulsei dela. Agora ela encontrará paz diante de Deus...
— Essa mulher nunca encontrará paz com ninguém — interrompeu Shahira, com voz alta e punitiva. — Sua sanidade já se foi. — Tudo o que vemos são seus restos gaguejantes.
— Não — sussurrou Will, abrindo e fechando os punhos várias vezes. — Não.
— E você sentiu isso com seus superpoderes kartanins? — perguntou Nelder com desdém.
“Kartanin”, Will repetiu em sua mente, e mais uma vez o conhecimento de antigos relatórios inundou sua memória: “uma raça de seres felinos de outra galáxia. A estranha provavelmente possui alguma habilidade psíquica. Provavelmente empatia.” Isso significava que Shahira não deduzia o que era dito por meio de observações, mas sim pressentia o que estava acontecendo com Celine. Will Dean sentiu um nó na garganta; sentiu-se fraco. De qualquer forma, já era tarde demais. Ele estava se iludindo; não havia mais como salvá-la.
— A paz tem um significado diferente para cada pessoa — respondeu Nelder com um sorriso presunçoso, e Will sentiu uma súbita vontade de lhe dar um soco. Para fugir e fazer com que os dois criminosos paguem por seus atos.
— Seu covarde — praguejou ele, com o punho tremendo. Ele picou a palma da mão com as unhas com tanta força que pequenas gotas de sangue escorreram. A dor era quase prazerosa para ele, tornando o horror mais suportável.
— Essa alma só encontrará paz em um lugar. — Eu a resgatarei.
— Não, não faça isso! — exclamou Will, que imediatamente entendeu o que ela queria dizer. Ele deu um tapa na testa como se quisesse se punir por sua estupidez, depois agarrou o receptor com as duas mãos e o sacudiu como se pudesse impedir o que estava acontecendo.
— Existem dois tipos de crueldade — disse Shahira, a meia-voz. — Necessário e supérfluo. — Aprenda a diferença, Romano Nelder. O sofrimento que você causou a ela foi desnecessário. Portanto, estou encerrando isso agora.
Um estalo arrepiante veio do campo sonoro, como se ossos estivessem quebrando. Celine gemeu de agonia, uma última vez, e então seus soluços cessaram para sempre.
Will foi tomado pelo terror. O receptor escorregou de suas mãos e caiu no piso de parquete artificial. Uma parte se desprendeu e o campo acústico entrou em colapso. Um silêncio se instalou, quebrado apenas por sua respiração ofegante e por sua voz enquanto falava. Ele disse apenas uma palavrinha, e então também se calou:
— Acabou.
Horas depois
— Já estava mais do que na hora — disse Sam, irritado, enquanto a escotilha se abria à sua frente e o rosto rechonchudo de Kellonda sorria para ele. Sem cumprimentar ninguém, a saltadora entrou à força na suíte de luxo, olhou em volta com um ar desafiador e, em seguida, marchou com as pernas bem abertas em direção ao sofá espaçoso que dominava o ambiente. Com um suspiro exagerado, ela afundou na almofada, bem ao lado de Japar. Suas nádegas estavam bastante salientes, e seu companheiro se afastou dela para evitar cair contra seu lado. Ele tossiu indignado. A viagem ainda estava claramente lhe causando desgaste.
Tyler deu uma risada obscena. Ele estava de pé no bar e acabara de se servir de um líquido amarronzado de uma garrafa bojuda. Provavelmente era algum tipo de bebida alcoólica; Sam não se deu ao trabalho de perguntar. Ele não estava com paciência para clichês naquele momento.
— Você já entrou em contato com esse misterioso corretor de informações? — perguntou ele, com uma franqueza que beirava a grosseria. Os trejeitos da saltadora o irritaram, e além disso, eles estavam perdendo tempo.
Kellonda pareceu perceber a seriedade dele; pelo menos, foi a impressão que ele teve dela, como se ela tivesse mudado de comportamento. A arrogância desapareceu de seu rosto e ela se desapegou do ex. Agradecido, Japar se esgueirou para a outra extremidade do sofá, o mais longe possível dela.
— Sco-Chii concordou em se reunir. — A quantia que ele exige...
— ... mas isso não importa — interrompeu Sam, mais uma vez sem se importar com a delicadeza. Não era exagero. Por trás dele estavam os recursos da imortal organização Camelot e, portanto, o poder financeiro de um Homer G. Adams. Ele tinha literalmente todos os fundos da Galáxia à sua disposição. — No entanto, você ainda não nos provou se ele tem algum valor. — Eu precisaria de uma amostra de suas habilidades.
— Ah — disse Kellonda, e seu rosto se iluminou. Então ela enfiou a mão no bolso do casaco e tirou um pedaço de papel. Ela estendeu a mão para Sam. — Estou preparada para isso.
— O que é isto? — perguntou o somerense, desconfiado, mas mesmo assim ele deu um passo em direção a ela. Com garras afiadas, ele arrancou o bilhete de seus dedos e o desdobrou. Havia uma mensagem escrita nele com letras minúsculas e desajeitadas. Foi escrito na intercosmo e consistia em apenas uma frase:
— Pergunte à Kellonda sobre o superpesado — leu Sam em voz alta, perplexo. Ele ergueu os olhos do pedaço de papel e os encarou diretamente nos olhos avermelhados dela. Por fim, ele eriçou suas penas azuis e inclinou a cabeça. — O que isso poderia significar?
— O superpesado: — Kellonda começou a recitar, como se estivesse recitando um poema decorado para sua turma da escola. — Seu nome era Pfork. — Ele era líder de seção dos Guardiões Galácticos até conhecer um agente do STL. Presumivelmente para obter dados secretos do STL. O departamento de segurança da BASE já vinha monitorando os dois há algum tempo.
Ela olhou para ele, buscando aplausos, quase com orgulho, como se tivesse acabado de botar um ovo. Sam abriu ligeiramente o bico, esperando para ver se ela continuaria sua história. Ele ficou desapontado.
— E? — perguntou ele depois de um tempo. — O que tudo isso tem a ver comigo?
— Sruel Allok Mok não tem uma opinião muito boa sobre os canais de notícias — comentou Tyler, com um tom baixo ligeiramente reprovador. Ele apoiou o cotovelo no balcão e pressionou o copo contra a bochecha, como se quisesse refrescar o rosto. Com um tom de desculpas e um olhar malicioso, ele continuou: — Hoje de manhã isso estava em toda parte. Um superpesado conhecido e uma terrana, ambos encontrados mortos em sua suíte.
Kellonda prosseguiu: — No entanto, essa não é toda a verdade, como Sco-Chii sabe. — Aparentemente, há receio de pânico entre os frequentadores do cassino. O que não seria muito lucrativo. Portanto, os detalhes macabros não são mencionados em nenhum momento.
— Quais seriam?
As bochechas da saltadora começaram a corar, ela abriu os braços e gesticulou enquanto relatava: — A mulher foi encontrada com o pescoço quebrado. — Queimaduras por todo o corpo, causadas por forças externas. Ah, e certamente não foi devido ao superpesado. Ele estava em situação semelhante, com o rosto coberto por uma enorme cicatriz de queimadura.
— Então foi um assassinato — observou Sam. — Devo ficar surpreso com isso?
— Deveria. — Sco-Chii afirma que Mordred, a organização que você procura, está por trás disso.
Sam permaneceu em silêncio por um momento; ele precisava processar o que tinha ouvido. Se isso fosse verdade, então esse misterioso Sco-Chii era exatamente o informante que eles estavam procurando. No entanto, ele não queria aceitar a oferta com muita facilidade. Isso pode ser interpretado como um sinal de fraqueza.
— Isso ainda não é prova suficiente — disse ele.
Kellonda deu de ombros, fazendo um gesto de arrependimento. — Mais em troca de dinheiro. — Essa foi a mensagem que recebi. Ele não me deu mais nada. Só mais uma coisa: o ponto de encontro. No que diz respeito à negociação.
— Terei de verificar isso — desconversou o somerense.
— Naturalmente. — Não tenha pressa, homem-pássaro — disse ela em tom neutro, com dificuldade para se levantar do sofá. Ela fez uma careta. — Japar sabe onde me encontrar. — Envie-me uma mensagem. O preço está no verso do pedaço de papel. O Sco-Chii me paga uma comissão de dez por cento, então não se preocupe com a minha taxa.
Quando finalmente se levantou, ela sorriu para o somerense. Ela havia recuperado o controle de si mesma e disfarçado bem a sua decepção. Sam não lhe deu mais atenção; já estava concentrado em sua bagagem, que havia colocado sobre uma pequena mesa ao lado da entrada. Ele vasculhou sua mala de viagem e tirou uma caixinha. Wirsal Cell o entregou pessoalmente a ele antes de sua partida de Camelot. Lá dentro havia todo tipo de brinquedos, muitos dos quais seriam dignos de um agente secreto. Distraidamente, ele gritou para ela: — Avisaremos assim que tomarmos uma decisão.
Kellonda saiu da suíte sem dizer uma palavra. O somerense esperou até que a porta finalmente se fechasse atrás dela, então ele tirou um pequeno cubo preto da caixa. Tyler soltou um assobio estridente.
— Eu sei o que é isso. — Um Whistler PAC-635. Os especialistas estão enlouquecidos com essas coisas. Oficialmente, eles ainda nem estão à venda.
— Fico me perguntando quanto se conseguiria por uma picossintrônica de última geração no mercado negro — resmungou Japar. A ganância havia entrado em seus olhos. Sam não gostou nada dessa expressão. Esperava que o mehandor se controlasse e não cometesse nenhuma bobagem!
— Eu também tenho meus recursos — afirmou ele evasivamente, batendo três vezes na borda inferior do cubo. A picossintrônica se abriu, revelando uma série de portas. Sam se virou em direção ao terminal através do qual os frequentadores do cassino podiam se conectar ao cérebro de bordo da BASE. Estava embutido na parede; Sam só precisava encontrar um local adequado. Ele escolheu um ponto de acesso à direita do holomonitor antiquado e pressionou a picossintrônica contra ele com a parte inferior aberta. O cubo aderiu imediatamente e com firmeza, formando uma ligação com a superfície em nível submolecular.
O somerense sabia que vários programas de hackers já estavam em execução, tentando burlar os protocolos de segurança do sistema eletrônico do dispositivo. E de fato, após apenas alguns segundos, um LED verde acendeu no topo do cubo. O dispositivo indicou que estava pronto para operar. Sam estava lá dentro.
— O que será isso? — perguntou Tyler. Ele esvaziara o copo e o colocara à sua frente, e naquele momento passava a mão pela barba por fazer. Ouviu-se um ruído de raspagem.
— Até mesmo Homer G. Adams não esbanja dinheiro — respondeu o somerense secamente, acessando o campo holográfico que acabara de se abrir à sua frente. Ele digitou o termo de busca: Sco-Chii. — Quero verificar a autenticidade desse corretor de informações, quero saber se ele é confiável. — Esta picossintrônica em particular me permite acesso discreto até mesmo a conjuntos de dados bloqueados.
Um resultado de pesquisa apareceu no visor e Sam visualizou a entrada em detalhes. O anúncio mudou, a informação procurada apareceu: Sco-Chii, leu o somerense. Espécie: heeninniyense, chamada de peepxies pelos terranos. Oficialmente registrado como corretor de informações. Ser considerado um beneficiário do submundo do crime. Os documentos anexados incluíam: boletins de ocorrência, alvará de funcionamento e notificação de investigação fiscal. Nada que não fosse também de acesso público e nada que não pudesse ter sido falsificado com algum esforço.
— Filtre as informações protegidas — instruiu ele a picossintrônica. O dispositivo obedecia e pesquisava de forma independente – Sam jamais entenderia quais algoritmos ele utilizava – todos os nós de dados estavam protegidos do acesso de visitantes comuns do cassino por um mínimo de fechaduras de segurança. Era necessário que houvesse documentos administrativos nos quais o intermediador de informações fosse mencionado; a burocracia simplesmente exigia isso. Uma nave do tamanho da BASE, especialmente uma que tivesse sido transformada em um ponto de encontro social, exigia a infraestrutura de uma cidade de porte médio para funcionar adequadamente.
— Ah — disse o somerense, enquanto uma série de resultados de pesquisa aparecia no visor. Ele tocou em algumas aleatoriamente, folheando as páginas rapidamente. Era uma informação irrelevante. Talvez o item mais interessante tenha sido um relatório policial confidencial sobre uma prisão ocorrida após uma tentativa frustrada de assalto a um cassino. Sco-Chii era considerado suspeito na época e acusado de cumplicidade. No entanto, nada pôde ser comprovado contra ele, e o processo acabou sendo arquivado.
— Sco-Chii parece ser real — informou ele aos seus dois companheiros humanos. — Ou isso, ou nossos adversários têm a capacidade de falsificar esses dados. — Sinceramente, prefiro não pensar nisso.
— Você... você quer dizer — gritou Japar, com o rosto ficando vermelho — que Kellonda nos trairia para um espião da Mordred?
Ele saltou do sofá num movimento rápido e ameaçou Sam com um soco. Ele cruzou os braços sobre o peito e balançou a cabeça negativamente. Como se isso não bastasse, seus guarda-costas autoproclamados arruinariam a missão com um comportamento tão afetado quanto o de uma diva!
— Sente-se, Japar — ordenou ele severamente, e para sua surpresa, o mehandor obedeceu, embora com um resmungo ofendido. Sam se arrependeu imediatamente da rejeição; não era do feitio dele agir daquela maneira. Para amenizar a situação, ele acrescentou com mais delicadeza: — Não estou reivindicando nada. — Mas está dentro do campo das possibilidades. Precisamos nos proteger. Além disso, quero saber o quão confiável é esse informante. Qualquer pessoa pode obter informações disponíveis publicamente na internet; não precisamos de um informante caro para isso.
— E o duplo homicídio? — respondeu Japar. — Esse cara superpesado e o agente do STL?
— Trabalho de amadores, na minha opinião — respondeu Tyler por Sam, enquanto pegava a garrafa volumosa e servia mais um pouco do líquido marrom. — Ou então o pessoal da Mordred tem tanta certeza de si mesmo que pode deixar um rastro tão selvagem por onde passa. — A questão é: como descobrimos isso?
Ele nem tinha terminado de falar quando o copo cheio estava novamente em seus lábios e ele o bebeu de um só gole, ávido por sabor. Sam observava com preocupação; entre os terranos, beber álcool de madrugada era considerado incomum. Ele se perguntou involuntariamente o quão confiáveis seus companheiros realmente eram. Ele teria que ficar de olho não só em Kellonda, mas também nos dois.
Em vez de responder, ele se virou para a picossintrônica e disse: — Informações sobre a Mordred. — Investigação de possíveis ligações com a pessoa de Sco-Chii.
— Você acha isso esperto, seu passarinho bobo? — interrompeu Tyler, pousando o copo apressadamente. Ele se aproximou dele com três passos largos e se posicionou ao seu lado, gesticulando com os braços. Seu rosto demonstrava preocupação, pois ele acreditava que o tratamento desrespeitoso fosse uma mentira. — Se Mordred realmente mantém uma rede de agentes na BASE, então eles certamente estão interceptando essas consultas de busca. — Então eles saberão imediatamente que há alguém a bordo fazendo perguntas incômodas.
O somerense foi atingido por um calor escaldante e olhou para o terrano com os olhos arregalados. Ele tinha razão! Ele ainda falava muito sobre ser cauteloso e se precaver, e então cometeu um erro daqueles! Maldita impaciência!
Sam estendeu a mão para o cubo, com a intenção de arrancá-lo da parede, justamente quando os primeiros resultados da busca apareceram na tela holográfica. Ele falhou: nem sequer tinha tocado no aparelho quando um choque elétrico percorreu seu corpo. Sua mão foi literalmente arrancada da picossintrônica, e ele gritou de dor. O cheiro de penas e chifres queimados ardia em suas narinas. Sam examinou suas garras criticamente. Ele ficou chocado ao descobrir uma marca de queimadura feia.
— O que foi isso agora?
— Atenção — disse a voz impassível da picossintrônica, e as penas de Sam se eriçaram com aquela única palavra. — Malware detectado. — Ataque em andamento à unidade PAC-635. Iniciar medidas defensivas.
— Um trojan — explicou Tyler, usando uma palavra terranos arcaica. Com a voz embargada, ele agarrou Sam pelo ombro e o puxou para longe do terminal. — O choque elétrico deve ser um mecanismo de proteção do programa. — Ele olhou em volta em pânico, procurando algo que pudesse usar como ferramenta. Seu olhar recaiu sobre um pequeno candeeiro de latão que estava em cima de uma cômoda à direita do terminal. Ele agarrou o objeto e bateu no cubo com a base da lâmpada. Mais uma vez, ocorreu uma descarga; um arco de luz saiu da picossintrônica e, como se fosse planejado, pousou na mão de Tyler. Ele deixou cair a lâmpada. O abajur de vidro se soltou da base, caiu no chão e se estilhaçou. Havia cacos de vidro espalhados pelo tapete, e Tyler caiu direto neles. Ao cair, sua cabeça bateu na borda do balcão, e ele ficou ali deitado, respirando com dificuldade, sem se mexer. Seus cabelos ralos se destacavam em finas mechas.
— Japar — gritou Sam, passando as garras pela cabeça. — Faça alguma coisa!
O saltador, que até então havia ficado sentado de boca aberta observando, finalmente reagiu. Ele saltou da cadeira novamente, apenas para girar imediatamente em torno do próprio eixo com uma expressão confusa, seus olhos examinando os móveis. Seu plano era aparentemente o mesmo que o de Tyler, e Sam tinha certeza de que o sucesso seria igualmente limitado.
— Um malware ultrapassou o primeiro firewall — relatou picossintrônica. — Os dados do fabricante estão sendo recuperados. — Iniciar protocolo de caixa-preta.
— Deixa pra lá — rosnou Sam, enquanto o saltador pegava um balde de gelo de metal para usar contra a picossintrônica infiltrada. A chapa metálica conduziria a voltagem tão bem quanto a base da lâmpada, e ele não podia se dar ao luxo de ter dois guarda-costas feridos. Em vez disso, ele reuniu coragem e respirou fundo. Doeria, mas ele acreditava que a garra de somerense queimado era mais fácil de tratar do que a pele dos lemúridas. Ele teve que remover a picossintrônica da parede sozinho, custasse o que custasse.
Ele apertou os olhos, cerrando os dentes. As pontas de seus bicos se roçaram umas nas outras, produzindo um som suave de mastigação. Ele se recompôs mais uma vez, recuou o braço e contou até três.
Então ele estendeu a mão.
Suas garras se estenderam até o vazio. Em vez disso, algo caiu a seus pés com um leve estalo.
Ele abriu os olhos, surpreso. Um objeto preto em forma de cubo estava posicionado na frente da ponta de sua bota. A picossintrônica. Ele se desprendeu da parede por conta própria, sem qualquer ajuda externa. Isso foi bom ou ruim?
— Protocolo de caixa-preta concluído. Malware isolado — gritou a picossintrônica para ele de cima do tapete, como se fosse explicar. Parecia arrogante, pensou Sam.
— Que sorte a minha — resmungou Tyler, finalmente endireitando-se. Com uma expressão de dor, ele esfregou o crânio no local onde havia batido na borda. — O PAC-635 isolou o cavalo de Troia. — Isso significa que podemos analisá-lo e rastreá-lo até a sua origem.
— Sorte. — Sim — respondeu Sam, amargamente. — Desde que o trojan ainda não tenha revelado nossa localização ao inimigo.
Japar acenou com a mão, dispensando a proposta, ainda segurando a garrafa térmica de vinho. Enquanto falava, ele fez um esforço audível para adotar um tom reconfortante: — Não há nenhuma certeza de que Mordred esteja sequer por trás do cavalo de Troia. — Provavelmente, foi um ataque hacker simples.
— Provavelmente? Para mim, seria uma coincidência grande demais.
Balançando a cabeça, Sam se virou e fugiu sem dizer uma palavra para o quarto. Ele já tinha tido emoção suficiente por aquele dia, precisava de paz e sossego — e silenciosamente se ressentiria de sua própria estupidez.
— Acesso a arquivos protegidos em andamento.
Nelder saltou. A sintrônica o despertou bruscamente de seu sono inquieto, justamente quando ele havia começado a cochilar. A mensagem impassível era acompanhada por um zumbido estridente, um dos sons mais desagradáveis do universo, na opinião dele. Projetado para assustá-lo a qualquer momento, não importa o que ele estivesse fazendo. Com sucesso, como ele acaba de descobrir. Ele endireitou-se na cadeira e esfregou os olhos cansados.
— Acenda a Luz! — ele gritou na escuridão, e imediatamente as luzes do quarto se acenderam. O zumbido parou automaticamente assim que cumpriu sua função. Nelder passou as pernas para fora da cama e caminhou até o terminal. Ele sentou-se em frente a ela, bocejando. Na verdade, ele queria dormir e se acalmar. A vergonhosa sede de sangue o havia exaurido, e ainda não havia desaparecido completamente – os cantos de sua boca se contraíram ao pensar novamente no corpo contorcido e seminu da desertora, e na sensação de poder que sentiu ao purificá-la com seu yekjab. Ele teria que se autoflagelar como castigo por esse sentimento de prazer e pela fraqueza de ter cedido a ele. Mas agora o dever chamava.
— De onde vem o acesso? — perguntou ele ao programa FENCE, que – sem que o cérebro de bordo percebesse – havia assumido o controle do terminal.
O holograma desapareceu, dando lugar a uma visão geral esquemática da BASE. No entanto, havia algo de errado com a apresentação. Na verdade, refletiu Nelder, um ponto vermelho deveria ter indicado a localização de onde o espião desconhecido havia feito a busca. Em vez disso, brilhou em vários pontos; as pontas se acendiam e apagavam novamente, apenas para reaparecer em outro lugar. Com o tempo, as marcas desapareceram completamente.
— Ponto de acesso não localizável — declarou o programa FENCE, e o holograma voltou à visualização tabular. Nelder reprimiu uma maldição ímpia que certamente o teria levado ao purgatório por vários dias e cruzou os braços sobre o peito. Esse espião ocultou seus rastros na rede. Poucos possuíam o equipamento capaz de fazer isso. “Alguém de Camelot, possivelmente”, concluiu ele. “Ou do STL, que está investigando a morte de Celine Ahornd.” Então, no fim das contas, a culpa foi daquele gato estúpido; por que ele teve que matar aquela mulher? A terrana não poderia ter revelado nada, ela estava completamente fora de si no final!
— Escaneie a rede em busca de pings mascarados — ordenou ele, seguindo um impulso repentino. — Fiquem atentos, em especial, a algoritmos de camuflagem como os usados pelo STL ou Camelot.
Nelder sabia que esses algoritmos eram conhecidos por Mordred e, portanto, também pelo FENCE. Havia contatos, embora ele próprio não fizesse ideia de quem eles eram. Uma medida de segurança que ele compreendeu. Quem nada sabia, nada podia revelar.
— Um resultado — anunciou a sintrônica após intermináveis segundos, e o pulso de Nelder acelerou. Ele estava um passo à frente de seu oponente invisível, embora este provavelmente já soubesse que alguém o estava seguindo.
— Onde?
— Não localizável. — O acesso é possível, no entanto.
— Recuperar dados do fabricante.
Novamente, a sintrônica levou alguns segundos para responder: — Dados do fabricante foram isolados. — O cliente de rede se identifica como Whistler PAC-635.
Nelder soltou um assobio de aprovação; o número do modelo confirmou que ele estava certo. O estranho não era nenhum amador. Esses dispositivos ainda não estavam oficialmente no mercado e eram considerados altamente experimentais. Ninguém sem contatos tinha acesso a essa tecnologia. O círculo de suspeitos diminuiu. Na verdade, Camelot era a única opção restante. O que não foi particularmente surpreendente.
De repente, o zumbido perturbador recomeçou, sinalizando perigo. Nelder saltou. Que tipo de diabrura foi essa?
— O PAC-635 iniciou contramedidas — informou a sintrônica. — Procedimento de caixa-preta. — O FENCE ficará isolado.
Nelder reprimiu uma maldição mais uma vez. Isso estava tudo, menos bom; uma vez que o malware fosse isolado, o Whistler poderia ser capaz de rastrear sua origem. Ele teve que agir rapidamente e cortar a conexão imediatamente.
— Copiem as consultas de pesquisa e depois retirem-nas — exclamou ele, cerrando os punhos. Então ele saltou da cadeira; nada mais o poderia deter. — Anda logo, caixa estúpida!
Finalmente, o zumbido insistente parou e uma mensagem verde no holograma indicou que a conexão com a picossintrônica Whistler havia sido cortada. Nelder deixou os ombros caírem.
— O protocolo de caixa-preta do inimigo conseguiu salvar uma cópia do script FENCE. — O rastreamento é potencialmente possível.
O mashratano acenou ignorando; ele não se importava se o sintrônica conseguia interpretá-lo ou não. Quem quer que tivesse acabado de reunir provas da existência da Mordred não viveria o suficiente para avaliá-las e repassá-las aos seus superiores. Ele se certificaria disso.
Ele se inclinou para a frente, expectante, e examinou as perguntas que o programa FENCE lhe enviara antes de se desconectar.
Um nome chamou sua atenção: o adversário havia pesquisado especificamente na internet por um peepsie chamado Sco-Chii. Um corretor de informações que ganhava a vida sabendo demais e vendendo esse conhecimento para o maior lance. Um oportunista, então. Nelder o odiava, sem nunca tê-lo conhecido.
— O que será que esse Sco-Chii sabe sobre nós? — perguntou ele em voz alta, coçando a cabeça. Ele e seus cúmplices haviam tomado precauções; era improvável que esse sujeito soubesse mais do que o nome da organização. Um fanfarrão, provavelmente até um vigarista. Alguém que merecia o castigo de Deus. Seu castigo.
— Dados insuficientes — respondeu o programa FENCE, como se estivesse zombando dele. O punho de Nelder se contraiu, pronto para golpear o dispositivo atrevido.
— Não estava falando com você, lata velha — ele repreendeu a sintrônica, balançando o braço. Mas depois ele mudou de ideia. Ele fez um gesto de desdém, com um sorriso cruel brincando nos cantos da boca. Basicamente, não importava o quanto o peepsie sabia ou não sabia. O espião desconhecido o encontraria mais cedo ou mais tarde. Não poderia haver melhor oportunidade de acesso. Eles conseguiram se livrar de dois confidentes irritantes de uma só vez. Foi quase fácil demais!
— FENCE, me dê o endereço desse peepsie. — E me coloque em contato com o general Eyke.
— Como desejar. — No entanto, não foi possível contatar o general. Devo entrar em contato com o seu representante?
O mashratano ouviu. Lá estava ela de novo, a zombaria. Nelder tinha certeza de que não havia imaginado aquilo. Esse programa sintrônico ímpio zombou dele, querendo desesperadamente conectá-lo com aquele gato horrível.
— O que significa ser inalcançável? — gritou Nelder num súbito acesso de raiva. Dessa vez ele não se conteve; seu punho se chocou contra o terminal, causando um ruído estrondoso em seu interior.
— O TOBRUK está fora de alcance — declarou a sintrônica, imperturbável. — As erupções solares interrompem as capacidades normais de comunicação por rádio. — Eu poderia usar o hiper-rádio.
— E violar os protocolos de segurança?
Nelder balançou a cabeça negativamente. Isso estava fora de questão; se o FENCE assumisse o controle dos sistemas de hiper-rádio da BASE, inevitavelmente seria notada. Ele não tinha outra escolha. Ele teve que se submeter à senhora dos gatos mais uma vez. Ela, que o havia humilhado horas antes, ridicularizando-o em sua sede de poder. Seu olhar recaiu sobre o yekjab, que ele havia colocado em uma cômoda ao lado do terminal. Um dia ele a faria pagar. Isso também foi o justo castigo de Deus. Mas não hoje.
— Arranje um contato para mim com Shahira — ele disse com a voz embargada, rangendo os dentes.
— Como desejar.
Bastaram alguns instantes para que um novo holograma se desdobrasse diante de Nelder. Dessa vez, a imagem mostrava o rosto felino de Shahira. A criatura pairava a poucos centímetros à sua frente e parecia tão real que Nelder pensou que poderia estender a mão e tocá-la. “Um golpe com o yekjab, na potência máxima, e você vira história, mulher.”
— O que mais? — sussurrou o holograma para ele em vez de cumprimentá-lo. A expressão de Shahira era de desdém; ela estava visivelmente irritada com a ligação dele e não estava com vontade de longas conversas. Isso agradou perfeitamente a Nelder. O mashratano também não estava com vontade de uma conversa amigável. Resumindo, ele relatou o ocorrido: — O FENCE pegou alguém que estava bisbilhotando demais nossos assuntos.
— Quem?
— Não foi possível determinar. — Mas esse alguém logo encontrará um heeninniyense chamado Sco-Chii. Só precisamos ficar à espreita dele.
A criatura felina bufou, com as narinas dilatadas. — Por que você está me ligando para falar sobre isso? — ela respondeu hostilmente. — Você é o guarda Vhrato. — Você sabe o que fazer.
Nelder mordeu a língua. Que fera degenerada! Ela sabia perfeitamente que, depois da gafe com Pfork, ele não podia se dar ao luxo de agir unilateralmente por enquanto. Será que isso fazia parte do plano pérfido dela para fazê-lo cair em desgraça com Eyke? Ela era capaz disso.
— Preciso de apoio — ele conseguiu dizer.
Shahira ergueu as sobrancelhas. — Mais do que sua varinha mágica brilhante pode lhe oferecer?
“Espere só até eu testar a varinha mágica em você, sua mulher diabólica”, pensou Nelder, mas teve o cuidado de não dizer isso em voz alta. Em vez disso, ele se forçou a sorrir.
— Muito mais. — Uma equipe de operações especiais poderia ajudar. O que você pudesse prescindir.
O holograma de Shahira mostrou suas garras. Um arrepio percorreu o mashratano quando os dentes do predador horrendo brilharam. Ele ficou completamente tenso. Ele nunca a odiara tanto quanto agora.
— Faça o que você tem que fazer — respondeu a maluca por fim. — Você pode ficar com o Pergel. — Ele possui formação nessas questões. Estou te avisando para não estragar tudo de novo.
Sem aviso prévio, Shahira cortou a conexão e o holograma entrou em colapso. Nelder pegou o yekjab da cômoda, agarrou-o com as duas mãos e o apertou contra o peito como um menino aperta um ursinho de pelúcia. Seus lábios tremeram. Por fim, uma única palavra lhe escapou, e estava repleta de desgosto e ódio:
— Monstro.
— Corredor CC-3442-B — Sam leu em voz alta a placa na parede. Ele não entendia o sistema de numeração dos corredores a bordo da BASE, mas estava no lugar certo. Kellonda havia lhe falado sobre esse corredor; era ali que ele encontraria o heeninniyense. Sozinho. Em seus aposentos particulares, não em um local público. Sco-Chii deve ter se sentido muito confiante para assumir tal risco. Sam não sabia se esse pensamento deveria tranquilizá-lo ou assustá-lo. Ele se amaldiçoou brevemente por ter partido para o ponto de encontro sem seus dois guarda-costas autoproclamados, mas isso também fazia parte do acordo. Resmungando, ele passou a mão pelas penas da cabeça e subiu na esteira transportadora que o levaria até a porta de Sco-Chii – a cerca de um quilômetro e meio para o interior da nave. Não é um percurso que se possa fazer em dois minutos sem qualquer auxílio. Apesar de, como descendente de aves não voadoras, ele certamente se locomoveria melhor a pé do que a maioria dos lemúridas.
Em seu caminho, ele passou por quatro eclusas gravitacionais, cada vez com aquela sensação de enjoo já familiar no estômago, antes de finalmente chegar aos seus aposentos. Na quarta eclusa, o chão à sua frente virou em um ângulo reto. Após supostamente ter dado o passo em direção às profundezas, ele saltou da esteira rolante — seguindo uma premonição.
Mais tarde, Sam não teria sido capaz de dizer o que o levara a dar aquele salto, mas seria sua sorte: a cerca de cem metros adiante no corredor, estavam dois homens, presumivelmente ambos descendentes de terranos. Só agora ele os vira; parou, indeciso. De longe, ele pôde perceber que um dos dois estava armado com uma arma multifuncional. O outro homem segurava um bastão simples na mão e o agitava no ar. Ele falava alto com seu companheiro e parecia estar lhe dando ordens; Sam ainda estava muito longe para entender suas palavras.
Mais uma vez ele reagiu sem saber o que o motivou: apressou-se para o lado, buscando abrigo atrás de um dos vasos de flores que haviam sido colocados ali para o deleite dos convidados. Ele espiou cautelosamente por trás do vaso e escutou, tentando entender pelo menos um ou dois fragmentos de frases. Ele teve pouco sucesso.
“Sem uniformes”, pelo menos nisso ele tinha se dado conta. “Portanto, também não há forças de segurança.” No entanto, essa constatação não lhe serviu de muito benefício. Com um sentimento de inquietação, ele se lembrou daquela manhã, do trojan que quase os traiu.
“Agentes da Mordred”, ele juntou as peças. Não há dúvida de que o misterioso programa de espionagem deve ter alertado esses homens. A porta em frente à qual eles estavam era a do heeninniyense.
“Eles estão me esperando à espreita!” Com as garras retorcidas, ele passou a mão pela borda do vaso de flores, reprimindo um rosnado. Não foram Kellonda, Tyler ou Japar que o decepcionaram, mas sim ele mesmo. Ele agiu de forma desajeitada, e sua impaciência arruinou sua chance de aprender algo sobre seu oponente. A atitude mais sensata seria se retirar e abortar a missão imediatamente. Os estranhos ainda não o tinham visto, pois estavam muito absortos na discussão.
Mas, contrariando seu bom senso, ele ficou. A curiosidade falou mais alto; afinal, ele não tinha mais nada a perder. Com cuidado, esperando o momento certo, o somerense contornou o enorme balde sorrateiramente antes de mergulhar atrás do próximo balde com um salto um tanto desajeitado. Mais uma vez, ele esperou o momento certo. Assim que chegou, deu outro salto, desta vez por cima da esteira para o outro lado do corredor, onde outro balde o protegia do olhar dos estranhos. Eles nunca mais o viram. Foi quase fácil demais. “É preciso ter sorte”, pensou ele.
Ele repetiu o mesmo jogo uma terceira vez; a essa altura, seu coração batia tão forte que quase saltava à ponta do bico. Mas então ele finalmente conseguiu se aproximar o suficiente para entender fragmentos individuais da conversa:
— Guarde esse seu yekjab, Nelder — disse um dos homens, um gigante de cabelos escuros vestindo uma jaqueta de couro muito apertada. Ele apontou para o bastão na mão do outro homem e reforçou sua exigência, direcionando ameaçadoramente o foco de luz do seu holofote para o homem. — Não será uma luta corpo a corpo. — Não precisamos do seu maldito brinquedo.
Nelder, se é que esse era mesmo o seu nome, lançou um olhar sombrio para o seu companheiro. A mão que segurava o bastão deu um solavanco para cima, pequenos raios de luz percorreram a ponta do objeto. Um sorriso presunçoso brincava nos cantos de sua boca.
— Cuidado com o que você diz, Pergel. — Este guarda de Vhrato detestaria ter que repreendê-lo por seu sacrilégio.
Sam não entendeu nada; a conversa continuou estranha. Mas ele não refletiu mais sobre o assunto. Eram brincadeiras amistosas, como é comum entre os primatas; não cabia a ele julgá-las. Nelder fez um gesto convidativo. Seu tom de voz denunciava sua impaciência: — Vamos? — Antes que nosso misterioso bisbilhoteiro apareça por aqui.
“Bisbilhoteiro”, passou pela mente de Sam, e ele engoliu em seco. De repente, sua língua ficou estranhamente seca. “Eles estão falando de mim!” O comentário de Neider foi a confirmação que ele precisava para sua suspeita. Independentemente do que os dois tenham feito ao heeninniyense, a culpa foi dele. Ele não podia simplesmente deixar isso acontecer.
Aquele com o yekjab o torcia para todos os lados. Ele apontou o bastão para o mecanismo abridor de portas e esperou alguns instantes. Houve um chiado, a luz oscilou brevemente, como se o yekjab estivesse sugando a eletricidade dos fios. Pelo menos era o que Sam pensava. Provavelmente, seus olhos estavam apenas lhe pregando peças. Ele coçou a cabeça nervosamente e arrancou uma pena azul. Ele a deixou cair descuidadamente, como era seu costume. Até onde as coisas tinham chegado se ele já estava imaginando coisas por pura empolgação?
Finalmente, a porta deslizou e se abriu diante dos dois homens. Eles se esgueiraram por ali, e pouco depois sons penetraram a fresta: estrondos e gemidos, como se viessem de uma briga. Sam saiu do seu esconderijo e ficou ao lado do vaso de flores. Ele se inclinou para a frente, expectante, apenas o suficiente para espiar pela porta aberta. Felizmente, ele não teve dificuldade em avaliar a situação: os aposentos do heeninniyense eram pequenos e a mobília, pelo que ele podia ver de seu esconderijo, era quase espartana. No meio da sala estava ajoelhado o gigante chamado Pergel. Encaixada entre as pernas dele jazia uma figura alta e de aparência frágil, meio escondida pelo corpo do intruso. O somerense notou pele emaciada e esverdeada e um crânio sem pelos que se afunilava em uma ponta no topo. “Sem dúvida”, percebeu ele com um sentimento de medo, “o heeninniyense. Meu informante. E eu o coloquei nessa situação.” Ele tentou convencer a si mesmo de sua inocência, de que o corretor de informações simplesmente exercia uma profissão perigosa. O pensamento lhe ofereceu pouco consolo.
Ele assistiu impotente enquanto Nelder se aproximava de sua vítima e encostava a barra de energia em sua têmpora. O aparelho zumbiu e, pouco depois, sentiu-se cheiro de carne queimada. A criatura esquálida debatia-se violentamente e gritava. Sam sentiu o grito mais do que o ouviu; a voz do heeninniyense ultrapassou o limite de vinte mil hertz — uma faixa de frequência difícil de ouvir até mesmo para os ouvidos do somerense. O guarda de Vhrato parecia não estar ciente dessa sutileza, ou a ignorou deliberadamente:
— Fingindo ser corajoso, é? — resmungou ele, golpeando o heeninniyense na cabeça com seu bastão. Um arco de luz penetrou na órbita ocular direita da criatura. — Você acha que consegue não gritar? — Não crie muitas expectativas. Cedo ou tarde, todos eles acabam gritando.
Sam se abaixou atrás do balde novamente. Ele olhou em volta, procurando algo que pudesse usar como arma, mas logo desistiu. Ele não tinha a menor chance contra os atacantes; eles estavam melhores equipados e também eram fisicamente superiores a ele. Como eles conseguiram contrabandear as armas multifuncionais pelos postos de controle e levá-los até a BASE? Ao menos isso foi mais uma prova da superioridade deles. Eles eram extremamente bem organizados.
— Silêncio — Sam ouviu o gigante dizer. — Se você se mantiver calmo e tranquilo, deixaremos você viver.
A respiração de Sam acelerou, suas garras deixando profundos arranhões na parede de barro do vaso de flores. Não importava quais fossem suas chances — ele tinha que ajudar Sco-Chii, salvá-lo! Tyler e Japar me vieram à mente. Ele correria até o intercomunicador mais próximo e chamaria os dois para pedir ajuda. Os mercenários tinham experiência em combate e saberiam o que fazer. Ele fechou as pálpebras, reunindo forças para escapar.
— O que temos aqui? — exclamou Nelder naquele momento. Sam engoliu em seco e arregalou os olhos. Ele inclinou-se para a frente com cautela e olhou pela fresta da porta. O estranho olhou em sua direção, e Sam olhou diretamente em seus olhos.
“Não”, corrigiu-se imediatamente. O homem não estava olhando para ele, mas sim para a pena da cabeça que Sam havia arrancado. Só agora ele percebeu o quão tolo havia sido aquele gesto inconsciente. Numa nave cheia de somerenses, ninguém daria importância a uma pena perdida; era simplesmente uma visão demasiado comum. No entanto, aqui...
— Pergel — exclamou Nelder, e o gigante seguiu seu olhar. Então ele viu Sam e libertou sua vítima. Com a mão direita, ele pegou a arma que havia colocado ao lado dele e apontou-a para ele.
De repente, o raciocínio lógico de Sam parou. “Para longe, para longe, para longe”, algo dentro dele gritou, e suas pernas começaram a se mover sozinhas. Ele começou a correr, sem realmente querer e sem ter a mínima ideia de para onde estava indo. Ele desceu saltitando pelo corredor de onde viera. Ele se escondeu brevemente atrás de cada vaso de flores.
Atrás dele, ouviu passos apressados, e então um raio de sol passou velozmente por sua cabeça, a poucos centímetros de distância. O ar quente atingiu sua bochecha, chamuscando sua barba fina. O disparo atingiu o solo a várias centenas de metros de distância. Um alarme de incêndio soou.
Sam estava em transe, mal percebendo o que acontecia ao seu redor. Tudo o que ele conseguia ouvir era o sangue em seus canais auditivos e seu coração acelerado, como se quisesse saltar do peito. Ele continuava correndo, agora sem se abrigar, Desviando-se como um pássaro pré-histórico solto. Ele apenas ouviu vagamente uma voz gritando uma ordem. Era uma voz nova e desconhecida. De uma mulher. A ordem foi:
— Seus tolos! Guardem suas armas, metade da nave já sabe que vocês estão aqui.
Uma discussão começou, os humanos gritaram uns com os outros. Sam saltou sobre uma poça de metal semiliquefeito onde a explosão de energia havia atingido o solo. Uma corrente de ar frio começou a se formar quando o climatizador foi ligado, levando consigo os vapores que saíram do corredor.
Um segundo disparo ecoou, mas desta vez não havia calor. Sam estremeceu novamente. Ele parou abruptamente, como se tivesse batido de frente com uma parede, e ficou paralisado. Ele olhou em volta, ansioso. Para onde foi o segundo raio? Esse terrano deve ser o pior atirador do mundo se nem conseguiu chegar perto dele...
Então ele viu o gigante chamado Pergel desabar. Outro tiro foi disparado, e desta vez Sam viu o raio. Apareceu literalmente do nada, surgindo no ar. O tiro atingiu Nelder, depois a mulher — uma criatura felina, não muito diferente de uma kartanin. Ele a reconheceu como a pedestre que Kellonda quase atropelara algumas horas antes — uma coincidência tão improvável que seu cérebro ficou em branco por alguns segundos.
Quando ele se recuperou, os três suspeitos de serem agentes da Mordred já haviam desmaiado. “Fogo paralisante”, então Sam percebeu. Mas por quem?
O heeninniyense aparentemente havia se recuperado; ele acabara de colocar a cabeça para fora, no corredor. Ele emitiu um chilreio irritado – uma linguagem própria dos peepsies, incompreensível sem um tradutor. Sam inclinou a cabeça e abriu os braços: — Eu não sou um desses atacantes sinistros — gritou para o corretor de informações, na esperança de que este entendesse a intercosmo. Sco-Chii o encarou atentamente, agachado, pronto para fugir.
Então, uma voz alegre de um homem soou. Ela veio do corredor, do meio dos agentes da Mordred atônitos, mas não pertencia a nenhum dos três:
— Eles vão tirar uma soneca primeiro. — Vocês dois estão seguros.
Sco-Chii levou um susto; a cabeça de cebola desapareceu atrás da porta novamente. Sam ficou sem palavras no corredor até entender. Não foi uma assombração que ele testemunhou. O orador invisível teve que permanecer escondido atrás de um campo defletor. Um possível aliado?
— Mostre-se — gritou ele para o estranho. Sua coragem era fingida; na verdade, tudo dentro dele ainda ansiava por escapar. Ele olhou nervosamente em busca do próximo vaso de flores, do próximo abrigo atrás do qual pudesse se barricar, se necessário.
O homem invisível deu uma risadinha; era uma risada calorosa e amigável. Então o campo defletor colapsou e o salvador se revelou.
O estranho era um terrano, como Sam reconheceu à primeira vista. Um indivíduo com fenótipo de pele escura, cabelo curto e aparência jovem e atlética. O homem olhou gentilmente para o somerense, revelando uma fileira de dentes brancos e brilhantes. Ele havia casualmente jogado por cima do ombro o rifle paralisante com o qual havia atordoado os atacantes. Ele cutucou a criatura felina imóvel com a ponta do pé.
— Que estranho — murmurou pensativo. — Ela é a pior. — Ela parece ser a mais inofensiva de todos.
— Você provavelmente salvou minha vida, misterioso estranho — disse Sam como cumprimento, embora sem muita convicção. Seus músculos ainda estavam tensos, e ele arrastava os pés nervosamente. Uma série de perguntas passou pela sua mente. Quem era esse homem? Por que ele o ajudou?
— Uma armadilha. Você é um deles — disse ele, quando finalmente recuperou a compostura, com absoluta convicção. De repente, tudo pareceu claro. De que outra forma o cara poderia tê-lo rastreado até aqui, neste exato momento, e armado com um paralisador? Não houve tais coincidências.
O estranho olhou fixamente para ele, boquiaberto. Seus olhos se arregalaram. Ele ergueu o rifle.
Essa foi toda a validação que Sam precisava. O instinto de fuga se manifestou novamente, tornando-se avassalador. Era como se ele estivesse ao lado de si mesmo, como se estivesse observando outra pessoa que tivesse tomado posse do seu corpo. Ele deu um passo à frente, depois outro. Ele se abaixou quando o estranho finalmente apontou a arma. Ele atirou novamente, errando por pouco. Sam sentiu um formigamento na nuca. Essa foi por pouco! O homem de pele escura tinha uma pontaria melhor do que aquele a quem o guarda de Vhrato havia chamado de Pergel.
— Pare, somerense! — gritou o homem, começando a persegui-lo. Sam não teria conseguido obedecer, mesmo que quisesse. Suas pernas ainda se moviam como se fossem controladas por um controle remoto. Ele deu um terceiro passo, depois um quarto. Ele nunca chegou ao quinto. Ouviu-se um chiado quando o estranho puxou o gatilho novamente.
Dessa vez ele acertou. Um tiro de raspão, mas eficaz mesmo assim. O feixe de paralisia atingiu sua perna, diretamente abaixo do joelho direito. Sam cedeu, perdeu o equilíbrio. Tentou se apoiar com os braços enquanto caía. Mas tudo aconteceu muito rápido. Ele se chocou contra a superfície metálica sem frear, com o bico primeiro. Algo estalou quando ele caiu no chão; por alguns segundos, manchas coloridas dançaram à sua frente. A dor nublou seus sentidos, paralisou-o, como se o paralisador o tivesse atingido diretamente no peito. “Não tenho tempo para ter pena de mim mesmo”, instou-se, imbuindo-se de um frenesi. Com as garras firmemente apoiadas no plástico, ele se impulsionou para fora do chão.
“Tarde demais!” O estranho de repente parou sobre ele, apontando o paralisador diretamente para o crânio de Sam. Um gosto amargo persistia em sua língua, o gosto do fracasso. Ele tinha decepcionado Homer G. Adams. Se o homem de pele escura apertasse o gatilho imediatamente, a descarga elétrica que atingisse seu cérebro o incapacitaria por horas. É inimaginável o que seu oponente possa ter feito com ele durante esse tempo.
— Não! — gritou alguém. Uma voz estridente e desagradável, com uma entonação estranhamente mecânica. Era a tradução de um tradutor. Sons suaves de bip acompanhavam o que estava sendo dito.
O terrano se virou para quem falava, com a testa franzida. Sam também olhou em volta; ele viu o peepsie, que havia reaparecido no corredor. A criatura acenou com os dois braços. — Não atire, terrano. Vocês estão do mesmo lado.
— Este homem — afirmou orgulhosamente a voz do tradutor de Sco-Chii — é Will Dean. — Um agente do STL, trabalhando para o departamento de crime organizado. — Uma espécie de punição para ele. — Com um gesto amplo, indicou ao terrano que se sentasse em seu próprio sofá. — Sco-Chii sabe sobre ele.
Entretanto, eles haviam se refugiado nos aposentos do homem de pele escura. O quarto não era tão mobiliado de forma tão simples quanto a acomodação de Sco-Chii. No entanto, não era de forma alguma uma suíte de luxo como aquela que Sam e seus dois guarda-costas ocupavam na área VIP: o chão era coberto por um tapete verde de pelo curto. Uma cama, um guarda-roupa, o sofá já mencionado e, em frente a ele, uma mesinha. Espalhados pela mesa e pelo chão à sua frente, estavam os restos de um dispositivo positrônico destruído, testemunha de um acesso de fúria passado, assim como as roupas descartadas descuidadamente e espalhadas por toda parte.
O somerense encarou a situação e a desordem com ceticismo. Apesar de todos os seus medos, ele concordou em escolher aquele local como seu esconderijo. Eles haviam deixado os agressores paralisados no corredor e informaram anonimamente a segurança da nave. Que resolvessem a situação entre si — de qualquer forma, Nelder e a mulher-gato certamente teriam dificuldade em explicar por que emboscaram o heeninniyense armados e prontos para o ataque. Secretamente, esse pensamento deu a Sam um prazer perverso.
O homem de pele escura franziu a testa. — Como é que... — começou ele, coçando a nuca.
— Sco-Chii tem suas fontes — interrompeu o informante. O tradutor apresentou suas palavras em um tom monótono e cantado, conferindo-lhes assim um caráter misterioso. E por um instante, a única preocupação de Sam era por que o cara estava falando de si mesmo na terceira pessoa. Não poderia ser devido a uma má tradução. Os tradutores de hoje funcionam perfeitamente. Deve ter sido uma peculiaridade.
— Certamente você entende que o Sco-Chii precisa proteger essas fontes — continuou o corretor de informações. — Ele acharia mais interessante saber como você o encontrou, terrano.
Will Dean balançou a cabeça negativamente. Um sorriso malicioso surgiu nos cantos de sua boca, conferindo-lhe um ar ousado.
— Como você disse. — Sou um agente do STL. Não estou completamente alheio a informações confidenciais.
— Desatualizadas, veja bem. — Essa foi provavelmente a razão do mau humor do mashratano.
— O que estabeleceria unanimemente que cada um de nós tem seus ases na manga — interrompeu Sam, encerrando assim a conversa. Absorto em seus pensamentos, ele esfregou o joelho dormente. A paralisia diminuiu gradualmente e a sensibilidade retornou à sua articulação. Provocava um formigamento desagradável. — Como queremos prosseguir?
O terrano sorriu novamente e o ameaçou com o dedo indicador estendido. Em tom sério, ele disse: — Siom Som fica muito longe, somerense. — O que alguém como você está fazendo na BASE, e por que uma organização terrorista está à sua caça?
— Ah, você me permite? — exclamou Sco-Chii, entrelaçando seus dedos finos, feliz pela oportunidade de demonstrar seu conhecimento: — Este é Sruel Allok Mok, também conhecido como Sam. — Segundo a versão oficial, ele está aqui a mando da liderança militar de seu povo para vender armas de destruição em massa. Mas não foi isso que os passarinhos de Sco-Chii cantaram para ele.
Sam não ficou impressionado. Kellonda teria contado a maior parte; ela era a única pessoa para quem Tyler havia contado a história do traficante de armas até então. Ele estava curioso sobre o resto. Isso permitiria tirar conclusões sobre o quão valiosas eram as informações do heeninniyense.
— Estou extremamente interessado nesse chilrear — insistiu ele. Sco-Chii emitiu uma série de sons estridentes e estacados que o tradutor não traduziu. O equivalente ao riso?
— Na verdade — começou o intermediador de informações — estamos lidando com um funcionário não oficial da Camelot. — Recrutado pessoalmente por Perry Rhodan, a bordo da LONDON. Homer G. Adams o envia; trata-se de uma organização chamada Mordred. — Se Sco-Chii me permite dar uma dica – ele piscou para somerense — para alguém com um perfil tão proeminente como o seu, caro Sruel Allok Mok, é uma ideia estúpida ir numa missão secreta sob uma identidade falsa. — Negligência por parte de Adams, muita negligência. Quase se poderia pensar que o chefe de segurança dele tinha deliberadamente tentado desmascará-lo.
— Bem, tudo bem — Sam interrompeu seu fluxo de palavras. Sco-Chii deve ter se preparado bem para a reunião com o potencial cliente; ele até se dirigiu a ele formalmente. Ele encarou o terrano. — No entanto, gostaria de saber por que a STL está interessada nos Mordred.
— Incursões em território da LTL — respondeu Sco-Chii antes que Will Dean pudesse dizer qualquer coisa. — A Mordred não passou despercebido pelo STL. — Neste momento, o STL e Camelot já estão trabalhando juntas. É claro que tudo é ultrassecreto. Nem todos os agentes estão cientes disso e têm uma visão geral. Will Dean estava ali para grampear uma desertora. O objetivo era reunir material incriminatório contra supostos membros dos Guardiões Galácticos que estão em contato com os Mordred. E é por isso que estão recebendo informações desatualizadas.
Will Dean finalmente se deixou cair no sofá e piscou para o corretor de informações.
— Isso é realmente mais do que eu mesmo sabia — disse ele, com a voz embargada pela emoção. — Mais.
— Como nosso amigo somerense já salientou — respondeu o humanoide solenemente — as informações de Sco-Chii têm um preço.
— Quanto custa? — perguntou Will Dean, com o olhar fixo em Sam. Ele sorriu novamente, e Sam revirou os olhos. Será que o sujeito esperava que Camelot pagasse o preço? Ele bateu o bico de forma suspeita. Ele se arrependeu imediatamente do gesto, pois sua mandíbula ainda doía. Espero que ele não tenha sofrido nenhuma lesão na queda.
O peepsie acenou com a mão, um gesto arrogante, na verdade típico dos terranos. Ele deve ter desenvolvido esse hábito por meio de suas interações com os clientes.
— Sco-Chii sabe quando deve algo a alguém. — E quando suas dívidas estão quitadas. — Visivelmente comovido, ele agarrou o peito, levando os longos dedos ao pescoço. — Will Dean salvou Sco-Chii dos capangas da Mordred. — E se Sruel Allok Mok não tivesse distraído os estranhos, Will Dean teria chegado tarde demais. Sco-Chii sente gratidão.
Sam cruzou os braços, demonstrando confiança. Ele não mencionou para o peepsie que os terroristas só tinham tomado conhecimento dele por causa da sua curiosidade.
— Então você está disposto a nos fornecer essas informações gratuitamente? — perguntou ele, com ousadia. O heeninniyense acenou com as mãos como se quisesse espantar um enxame de moscas invisíveis.
— De graça? — Não. Obrigado. E um investimento no futuro do Sco-Chii. Alguém em sua posição precisa de aliados poderosos. E proteção contra nossos inimigos comuns.
— Posso providenciar algo assim — admitiu Sam sem rodeios, e mal havia terminado de falar quando foi atormentado por um remorso. Na verdade, ele não tinha ideia de como persuadir Wirsal Cell a fornecer proteção pessoal para uma figura relativamente insignificante como o heeninniyense, mas pensaria nisso mais tarde. Quando tudo isso acabasse. Ele estendeu as garras e acenou com a cabeça, expectante, para o corretor de informações. — Estamos te ouvindo, caro Sco-Chii. — Por que Will Dean e eu estamos, como eles mesmos dizem, do mesmo lado?
Sco-Chii fez uma reverência, colocando novamente a mão no peito. Em seguida, ele foi até o sofá, limpou alguns elementos positrônicos do estofado e sentou-se ao lado do agente do STL. Com as pontas dos dedos pressionadas uma contra a outra, ele começou a chiar; a tradução dizia:
— O que Sruel Allok Mok não sabe é que o terrano Will Dean descobriu vestígios de uma conspiração no passado. A chamada conspiração da Lemúria.
— O quê, por favor? — Sam deixou escapar, sem muita sutileza. Foi o suficiente para te fazer pular da cama. Uma conspiração – algo que não se encaixava em nada no seu entendimento anterior. Ele percebeu subitamente que a situação havia saído completamente do seu controle. Pior ainda, ele pode nunca tê-la realmente dominado, partindo de premissas completamente falsas.
Sco-Chii ergueu os ombros e, em seguida, os deixou cair abruptamente – outro gesto típico dos terrano. Ele deve ter vivido entre humanos por muito tempo, pelo menos aqui a bordo da BASE.
— Ninguém sabe ao certo — respondeu ele vagamente. Ele fez um gesto vago com a mão. — Os passarinhos de Sco-Chii especulam que se trata do estabelecimento de um novo Império Lemurense na Galáxia. — Coisas revisionistas perigosas.
— Eu mesmo poderia ter dito isso a ele — Dean interrompeu o peepsie, sem ser grosseiro, mas com um tom baixo irônico. — Conte-nos algo que nenhum de nós saiba.
— Será que essa conspiração chega aos círculos governamentais mais profundos da LTL? — respondeu Sco-Chii, divertido. — Ah, as fontes de Sco-Chii chegam a dizer a ele quem seria afetado caso o assunto viesse à tona.
— Nomes — exigiu Dean, de forma seca. Sco-Chii fez uma reverência, como uma donzela na corte. Sam de repente pensou que era como se ele estivesse zombando do terrano.
— Sco-Chii prometeu informações. — Ele sabe nomes, muitos nomes. Por exemplo, este: Ticiano Grannet?
Se Sco-Chii esperava alguma reação de Will Dean, ficou desapontado. O terrano balançou a cabeça, mantendo a expressão neutra.
— Não significa nada para mim.
— Goram Collan, talvez?
— Quem seria essa pessoa?
O peepsie deixou os braços caírem e soltou algo como um suspiro.
— E quanto a Reynar Trybwater?
— Isso não nos leva a lugar nenhum — resmungou Sam, cerrando o punho e estendendo-o para os dois em uma ameaça fingida. Isso o irritou. Sco-Chii era o informante dele, não do STL. Foi necessário aproveitar-se de sua “generosidade” antes que ele decidisse que sua culpa estava resolvida com as informações sobre essa sinistra conspiração. — Preciso urgentemente de informações sobre Mordred, sobre...
Ele se conteve. Algo estava errado. O terrano! O que aconteceu com ele? Por que ele de repente começou a espumar pela boca? Por que estava tremendo? As pálpebras de Will Dean tremeram, sua cabeça caiu para trás e começou a girar. Se ele...
O terrano engasgou. Uma palavra escapou de seus lábios, baixa, quase inaudível. Era um nome:
— Tryb... wa... trr… — Sam entendeu. E então, com clareza perfeita novamente, Dean acrescentou: — Eu me lembro.
Memórias de Will
“Eu lembro.”
A escuridão o envolveu como água viscosa. Ele abriu caminho em meio à multidão, tentando chegar à luz do dia. Seus pensamentos estavam vazios, com apenas algumas perguntas ecoando em sua mente:
“Quem sou eu?”
O que estou fazendo aqui?
E um nome: “Trybwater.” Ele não conhecia esse nome. E, no entanto, aquilo despertou algo dentro dele; aquela sequência de sons o havia trazido até aquele lugar.
“Estou inconsciente.”
Ele deu uma braçada de natação. Aos poucos, o mundo ao seu redor foi ficando mais claro. Ele viu um salão com vários metros de altura, cujo teto era sustentado por vigas metálicas expostas. À sua esquerda estava um planador, um modelo de 1270, novinho em folha, com a eclusa aberta. O ar tinha cheiro de neve recém-caída, de oxigênio ionizado e ozônio. Um cheiro típico perto de motores de naves espaciais que ainda não esfriaram completamente. O planador deve ter acabado de pousar. “Consegui me safar dessa?” Ele viu seu reflexo no para-brisa do veículo: pele escura, alto, careca. Estrangeiro. A figura de outro.
“Eu sou Will Dean”, lembrou-se de repente, e soube naquele mesmo instante que isso não era verdade. Não aqui. Agora não. Ele olhou para as próprias mãos. Não eram dele. As dele eram pretas, com superfícies internas claras; estas eram verde-oliva. Uma delas segurava um radiador térmico. O cano da arma estava pressionado contra a testa de uma mulher. A estranha ajoelhou-se diante dele, com os braços cruzados atrás do pescoço, e olhou para ele suplicante – uma terrana, de cabelos ruivos flamejantes, alta e com porte atlético. Ela era linda; em outras circunstâncias, Dean a teria convidado para tomar um drinque. Ao lado dela espreitava um animal de seis patas com a pele de um anfíbio. Um okrill.
— Quem é você? — perguntou Will Dean a estranha, com uma voz que também não era a sua. E, no entanto... ele a conhecia. Ela já tinha ouvido ela muitas vezes antes. Mas a quem pertencia?
“Trybwater?”
A mulher pigarreou, chamando assim a atenção dele para si. Algo nela o deixava inquieto. Ela também lhe parecia familiar. Mas ele não há conhecia na vida real; para ele, ela era mais como uma personagem das colunas de fofoca. Uma dessas celebridades de segunda categoria, famosas apenas pela própria fama. Ele se lembrava do nome dela? “Deve.. Deviri... Algo assim.” Dean nunca se interessou por tais trivialidades.
Mas havia algo mais. Algo que o alertou sobre ela. Ela representava um perigo; caso contrário, por que ele a estaria mantendo sob controle com uma arma? Por que mais o okrill estaria com sua língua elétrica deslizando ameaçadoramente perto da orelha dela?
— Catherine Deveroux — respondeu a mulher, tremendo. Ela ergueu as mãos e as juntou como se estivesse em oração. — Você deve saber disso. Afinal, você me seguiu até aqui.
— Catherine Deveroux — disse Will Dean, arrastando as palavras. Então lhe ocorreu: — Você era a esposa de Randolph McNair, diretor de operações das Indústrias Shorne e do Conselho de Ciências da Terra. — Vice-presidente da Sorbonne, cientista, e pertencia à nata da alta sociedade. Então, um dia, você desapareceu sem deixar rastro, um dos grandes mistérios das últimas décadas. — O conhecimento invadiu sua mente, ele não sabia de onde vinha. Certamente não é algo que se encontra nas colunas de fofoca.
E, combinado a informação, formou-se uma identidade. A dele, pelo menos neste mundo dos sonhos:
“Monkey.”
Ele era o Monkey. Ao mesmo tempo, ele continuava sendo Will Dean, vendo o mundo pelos olhos do oxtornense. Como isso foi possível? E por que agora, neste momento inoportuno?
“Trybwater.”
O som desse nome deve ter removido algum tipo de barreira interna. Um hipnobloco, talvez? Ele engoliu em seco, o coração de Monkey disparou no peito de Dean, e tudo pareceu completamente real. Embora uma parte dele soubesse que, na verdade, estava deitado se contorcendo no chão de seus aposentos a bordo da BASE, ele viu que o somerense e o peepsie estavam debruçados sobre ele, preocupados. Ele teve que lutar para sair do mundo dos sonhos, enfrentar os perseguidores da Mordred ou dos Guardiões e...
“Não”, ele se contradisse. Quem quer que tenha se dado ao trabalho de lhe imbuir as memórias de outra pessoa e protegê-las com um hipnobloco, claramente se esforçou bastante. Alguém queria lhe dizer algo, enviar-lhe uma mensagem. Especificamente, uma sobre Trybwater. Ele teve que jogar.
Dean/Monkey levantou a cabeça e olhou em volta. “AX823P” recitou ele, recordando-o da memória do alienígena, enquanto deixava seu olhar vagar pelo imponente salão. — Um asteroide, algures entre Marte e Júpiter. — Ele estudou a mulher pensativamente e deu-lhe um empurrãozinho com a arma. — O que estou fazendo aqui?
— Você vai me matar. — Essa é a sua missão.
As palavras dela ecoaram dentro dele, e ele se lembrou da missão de Monkey. Um plano para assassinar um influente industrial. Foi a própria esposa dele que a fiou. E ele, Monkey, era quem deveria derrubá-los. Um assassinato por encomenda, nada mais, nada menos. Dean/Monkey engoliu.
— E fui eu... foi o Monkey que fez isso?
A mulher sorriu, timidamente, e deixou os braços caírem. Ela se levantou cuidadosamente, sem perdê-lo de vista, com os dedos sempre estendidos para demonstrar sua vulnerabilidade. Dean/Monkey manteve o radiador apontado para a testa dela, usando a mão livre para sinalizar ao okrill que permanecesse em silêncio.
— Olá, Shaker — ele tranquilizou o animal, como se sempre tivesse conhecido aquele nome. Ele não subestimou sua prisioneira. Cat Deveroux, ele percebeu de repente, era perigosa mesmo sem uma arma. Uma lutadora, treinada em Dagor, entre outras coisas. Não era a celebridade inofensiva de segunda categoria que a sociedade pensava que ela fosse.
Cat Deveroux balançou a cabeça, ainda sorrindo. — Não — disse ela. — Você me deixou viver. — Mais tarde, eles me ajudaram a me esconder e a lutar contra os perseguidores do meu marido nas sombras.
— Por quê? — Dean/Monkey pressionou. — O oxtornense é um assassino sem emoções. — O que você poderia ter dito para que ele sentisse pena de você?
— Pena?
Cat ignorou a arma em sua testa e caminhou em direção a ele. Ela agarrou o braço dele. Sua expressão era séria, melancólica. Agora ela não estava mais sorrindo.
— Você é realista, Monkey. — Você não precisa de pena para fazer a coisa certa. Porque, apesar de tudo, você tem uma consciência. E porque meu marido e sua organização precisam ser detidos.
— A organização dele? Indústrias Shorne? — respondeu ele, franzindo a testa. — Eu não entendo. O que isso tem a ver com os Guardiões? — Com Mordred? — Finalmente, ele baixou a arma, embora apenas um pouco. — E quem é Reynar Trybwater?
— Mordred — respondeu ela, ignorando a última pergunta dele, e olhou para baixo. Seu rosto se fechou, seu lábio superior enrijeceu. Ela assentiu com a cabeça e fez um gesto por cima do ombro. — Se você quer saber, venha comigo. — Vou te mostrar uma coisa.
Dean/Monkey hesitou, travando uma batalha interna. Ele sabia muito pouco sobre a situação para avaliá-la adequadamente. Ele raciocinou que a ordem para matar, de Monkey, devia ter vindo de cima. Os agentes do sinistro Departamento Zero, para o qual oxtornense trabalhava na época, obedeciam apenas ao seu líder, Walter Reichmann.
“E a quem Reichmann obedece?”
— Se Randolph McNair e as Indústrias Shorne estiverem envolvidos em maquinações com a Mordred — ponderou em voz alta, enfatizando cada palavra —, e você pretende traí-lo, ele é o único que se beneficiará com a sua morte...
— Meu marido — ela completou a frase dele. — Sim. É como se o Departamento Zero quisesse lhe fazer um favor. — Tirando-me do caminho.
Dean/Monkey franziu a testa novamente. Será possível? Existiam ligações entre o agora extinto Departamento Zero e os terroristas? Afinal, o peepsie estava certo, e essa conspiração chegou aos mais altos escalões da LTL? Ele colocou a arma no coldre que carregava nas costas. Então ele acenou com a cabeça para Cat.
— Então foi isso que Monkey descobriu. — Que crime seu marido cometeu? O que havia de tão terrível em você para que o traísse, a ponto de Walter Reichmann querer você morto?
— Você quer dizer o que ele fez comigo? — perguntou ela, quase gritando. — Eu e — ela hesitou —, eu e nosso filho que ainda vai nascer?
— Calma aí — Dean/Monkey tentou acalmá-la, mas a terrana logo se enfureceu:
— Ele me sequestrou, fez manipulações genéticas no... no embrião. — Irradiação com hipercampos. Mais uma experiência entre muitas na criação do Homo Superior.
Dean/Monkey resmungou, indeciso sobre o que pensar daquela revelação. Experimentos genéticos em fetos? Sequestro da própria esposa? Um escândalo, sim, e também algo terrível. Motivo suficiente para Catherine Deveroux se vingar de seu marido, Randolph McNair. Mas será que é importante o suficiente para justificar um assassinato político? Algo não se encaixava; faltava uma peça importante do quebra-cabeça.
— Não estou convencido — ouviu Monkey dizer, desta vez sem qualquer intervenção sua. O mundo da fantasia tomou conta dele; ele agora estava completamente imerso na memória do oxtornense e não tinha mais nenhuma influência sobre os acontecimentos.
Cat estendeu a mão em direção a ele de maneira exigente.
— Venha comigo. Vou lhe mostrar. O assassinato do meu filho não foi o único crime de Randolph.
— Estou te avisando, Catherine Deveroux — respondeu Monkey, espreitando. — Se você estiver armando uma cilada...
— Você vai me matar?
Ela fechou os olhos e balançou a cabeça suavemente. Seus ombros caíram para a frente. De repente, ela pareceu cansada, completamente exausta.
E foi aí que Will percebeu. Esta não era um terrorista de sangue frio, como Walter Reichmann o fizera acreditar. Essa era uma alma atormentada que queria dar um fim a algo. Algo que a atormentava, roubando-lhe o sono e levando-a à loucura. E a parte dele que era Will Dean sentiu o que Monkey nunca havia sentido: pena.
— Vamos lá — disse ele, e apressou o passo. — Vamos lá, Shaker.
A mulher o seguiu, e o okrill fechou a fila. Ao passarem pelo planador, ele olhou mais uma vez para seu reflexo desconhecido no planador. Dessa vez, ele reconheceu a figura enorme e de ombros largos do oxtornense: crânio calvo, pele verde-oliva, olhos castanho-escuros. Em seguida, ultrapassaram o veículo e aproximaram-se de uma escotilha baixa que os conduziria ao interior do asteroide.
Dean/Monkey parou abruptamente, tão repentinamente que o terrana quase colidiu com as costas dele. Ele ignorou o protesto murmurado dela e a empurrou para o lado. Então ele voltou para o planador, posicionou-se com as pernas bem afastadas em frente a ele e olhou para o reflexo mais uma vez, desta vez examinando-o atentamente. Ele não conseguia se livrar da sensação de que algo estava errado.
— O que você tem?
Cat ficou ao lado dele e olhou para ele com um olhar interrogativo. Dean/Monkey, no entanto, não disse nada. Ele continuou a encarar seu reflexo, buscando, refletindo. Ele não estava enganado, algo estava errado. Ele estudou o próprio rosto repetidas vezes: o nariz largo, os nós dos dedos salientes, as pupilas castanhas e...
BASE, ao mesmo tempo
— O que está acontecendo com ele neste momento?
Sam debruçou-se sobre o terrano caído, examinando-o com um olhar interrogativo. Tudo aconteceu muito rápido: momentos antes, Will Dean estava de pé, conversando com ele e com o heeninniyense. Então, subitamente, ele caiu no chão e começou a se contorcer. Espuma se formou diante de sua boca, palavras borbulharam entre seus lábios entreabertos. Eram praticamente incompreensíveis.
Sco-Chii reagiu primeiro, mesmo enquanto somerense tentava assimilar a nova situação: ele imediatamente saltou e ajudou o terrano, amortecendo assim sua queda. Agora, o heeninniyense sentou-se nas pernas de Dean e segurou seus braços com firmeza, assim como Pergel havia feito com ele antes. Isso impediu que o agente da STL se desequilibrasse e potencialmente se machucasse. Ele deu um tapinha na bochecha de Dean, quase com ternura.
— Sco-Chii não sabe — respondeu ele, enquanto o homem de pele escura se levantava e ele o empurrava gentilmente para o chão. Ele lançou um olhar desafiador para Sam. — Você poderia ajudar o Sco-Chii, por favor?
— Sim. Sim, isso é óbvio.
No entanto, ele hesitou por um tempo que pareceu uma eternidade. Então ele finalmente se recompôs e também se curvou. Com cuidado, para não forçar demais o joelho ainda meio dormente, ele segurou os ombros do terrano com firmeza. Deu trabalho; o agente da STL era mais forte do que ele suspeitava.
Entretanto, Will Dean começou a resmungar novamente. Sam se abaixou ainda mais, até que as penas ao redor de sua orelha quase tocassem a espuma em volta dos lábios de Dean, e escutou. O balbucio do homem inconsciente podia vir a ser importante.
— Tryyb... waa... ter — ele o ouviu dizer. — Mon... Gi... Gia de...” Seguiu-se outro tremor, tão forte que Sam temeu poder se libertar de seus dois ajudantes. O terrano ofegou como um afogado e gritou: — Gia de Moleon! — Monkey!
Ele olhou diretamente nos olhos de Sam e, de repente, pareceu completamente lúcido: como se nunca tivesse estado inconsciente. Com voz firme, ele disse: — Conspiração da Lemúria. — Memórias de Monkey. Implantado no meu cérebro. — Gia de Moleon, a raposa! — Ele sorriu. — E eu que pensava que a tia não gostava de mim.
Assim que terminou de falar, seu olhar se turvou novamente e ele se ergueu mais uma vez. Dessa vez, seu ataque foi tão violento que ele jogou Sam para longe. Sco-Chii guinchou de susto e deitou-se sobre o humano com todo o seu peso, tentando mantê-lo imóvel. Então ele ficou deitado em cima dele por um tempo. Sam ajoelhou-se ao lado dele, indeciso.
— Vou avisar o serviço de emergência — disse ele depois de um tempo, olhando para o comunicador que estava embutido na parede ao lado da porta. Sco-Chii balançou a cabeça vigorosamente.
— Não — objetou ele. — Nossos oponentes podem estar nos ouvindo. — Ficar ciente de nós. Sco-Chii é contra. — Ele inclinou a cabeça e pressionou a parte superior do corpo de Will Dean de volta contra o tapete, impedindo qualquer resistência adicional. Sam não discordou. Se ele fosse honesto, o protesto do heeninniyense havia lhe agradado bastante. Talvez tenha sido uma objeção paranoica, mas os erros que ele cometera nas últimas horas estavam gravados em sua memória. A ordem do dia era evitar correr mais riscos. Mas o que eles deviam fazer com o agente da STL enquanto isso? Eles não podiam simplesmente deixá-lo sofrer com a convulsão.
— Mon-Keyyy — murmurou o terrano a meia-voz. A saliva escorria do canto da sua boca, molhando a gola da camisa. Sua pele havia adquirido uma coloração doentia.
— O que fazemos, somerense?
Sam refletiu sobre isso. Ele não conseguia imaginar que o agente estivesse correndo sério perigo. Gia de Moleon havia sido a chefe do STL até a transmissão do distrito de Terrânia City, em Alashan, e se ela tivesse implantado as memórias de outra pessoa em seu agente e protegido-as com um hipnobloco... devia haver um motivo para isso. O somerense tomou uma decisão.
— Decidi ficar aqui. Esta área obviamente ainda não está comprometida. — Ele gesticulou em direção ao intercomunicador. — Vou ligar para meus dois companheiros, Sam Tyler e Japar. Você deve ser levado para um lugar seguro enquanto eu cuido da pessoa inconsciente.
O protesto do peepsie foi um assobio estridente, aparentemente repleto de palavrões. O tradutor não os traduziu. Sam só entendeu: — Ligue para seus amigos. — Mas Sco-Chii vai ficar por aqui.
Memórias de Will
Foi uma experiência estranha. Will Dean vivenciou duas realidades simultaneamente. Em um dos cômodos, o somerense e o peepsie ajoelharam-se ao lado dele, com semblantes preocupados, discutindo como ajudá-lo. Mas ele não tinha acesso a esse nível; tudo se desenrolou diante de seus olhos arregalados, sem que ele pudesse participar.
E então veio o sonho.
A memória do oxtornense vagando pelo asteroide de pesquisa junto com o okrill Shaker e a misteriosa Cat Deveroux, por passagens e corredores pouco disfarçados, por laboratórios e armazéns. Por fim, eles passaram por fileiras intermináveis de tanques. Às vezes, Dean ficava ao lado dele e observava, como se estivesse assistindo a um filme. Então ele atuou novamente, assumiu o papel de Monkey, tornou-se ele mesmo. Assim como agora, ao levantar a cabeça, olhou para os tanques e leu a inscrição com curiosidade:
— Risco de contaminação. — Ele saboreou a palavra, apreciando seu som despretensioso. — Estas são instalações de reprodução biológica. — É por isso que você está aqui? Por causa do que há nesses tanques?
Cat balançou a cabeça negativamente. Ela encostou a mão direita contra uma das estruturas da altura de um homem cobertas de geada. Foi quase um carinho. O okrill sibilou, mostrando a língua nervosamente. Ele obviamente não gostava dela. Dean/Monkey deu um tapinha no pescoço do animal.
— Calma, Shaker.
— Não por causa dos tanques — respondeu Cat, sem dar atenção a Shaker. A calma deles fez com que Dean/Monkey ganhasse um respeito relutante; um okrill era uma criatura perigosa. A simples visão de Shaker teria feito outros humanos fugirem. Talvez, especulou ele, ela estivesse simplesmente tão desesperada que não se importasse com o perigo.
— Mas e depois? — insistiu Dean/Monkey.
— Os tanques estão vazios. — O que era criado aqui já morreu há muito tempo. Apenas um espécime sobreviveu.
Ela baixou o braço e olhou para as pontas de suas botas. De repente, ela pareceu anos mais velha, como se tocar no tanque tivesse lhe roubado a força vital. Seu lábio inferior tremia, sua voz era pouco mais que um sussurro:
— Fiz uma promessa a alguém. — Naquela hora. Quando fugi dos homens de Randolph. Estou aqui para resgatá-lo.
— A quem? Seu filho?
Um riso sem humor escapou de sua garganta; ela balançou a cabeça quase imperceptivelmente.
— Não sobreviveu aos... experimentos. — E eles me... transformaram.
Ela deu uma ênfase peculiar à última palavra. Como que para provar isso, ela colocou a mão no pescoço de Shaker. Dean/Monkey ficou chocado; ela deve ser suicida!
Ele queria afastar os dedos dela, para protegê-la de algo pior. Mas ele não teve tempo de reagir. O okrill rosnou, com a língua para fora da boca aberta. Ouviu-se um estalo. O ar estava carregado de eletricidade estática, os pelos de Cat ficaram arrepiados. Por fim, a língua tocou seu pulso e lhe deu um choque elétrico. Seu braço foi repentinamente jogado para o lado. Cat Deveroux nem sequer se mexeu. Seu semblante endureceu.
— Compressão celular incipiente em nível molecular — comentou Dean/Monkey, assim que se recuperou da surpresa. — Eles te mantiveram em um daqueles tanques.
Essa não era uma teoria absurda. Certos hipercampos eram capazes de desencadear tais efeitos em humanos. E tudo fazia sentido; as Indústrias Shorne haviam gerado grandes vendas com patentes semelhantes nos anos seguintes ao acidente de Monkey. Mas o fato de Randolph McNair ter obtido essas informações por meio de experimentos com sua própria esposa e filho ainda não nascido... que tipo de monstro faria uma coisa dessas?
Cat Deveroux sorriu, mas sem alegria. Ela examinou a própria mão com atenção. Ela saiu ilesa, talvez um pouco avermelhada, mas sem sinais de queimaduras. Dean/Monkey achou isso extraordinário.
— Havia outros — comentou ela baixinho, estendendo a mão para ele. — Venha. Eu vou te mostrar.
Dean/Monkey acenou brevemente com a cabeça para ela. Eles caminharam ao longo da fileira de tanques. Quantos seriam? E em quantos deles espécimes viáveis amadureceram?
— Havia... — repetiu ele, e tentou contar os tanques. Dez. Vinte. Trinta. Por fim, ele desistiu. — Sempre no pretérito. O que aconteceu com eles?
— Eram vinte e um — disse Cat, tão baixinho que Dean/Monkey teve dificuldade em entendê-la. A voz dela se perdia no eco de seus passos; ele se esforçou para andar mais silenciosamente. — Eles estão mortos. — Todos, exceto um. Mortos simplesmente porque queriam liberdade.
— Quem os matou? — Indústrias Shorne?
Cat parou. Ela agarrou Dean/Monkey pelas mangas de seu traje de combate, como se fosse para se segurar, e se puxou em sua direção. Suas pálpebras tremeram. Shaker sibilou nervosamente e se preparou para pular, mas então pareceu mudar de ideia e se abaixou. A invulnerabilidade da terrana deve ter lhe incutido respeito.
— Quando eu... — um soluço ameaçou interrompê-la. Ela lutou contra isso. — Depois que os aras assassinaram meu filho, eu acordei aqui. – Em um desses tanques. E comigo estavam... as garotas.
Ela o soltou, com a cabeça dela pendendo inerte entre seus ombros. Com um profundo suspiro, ela continuou: — Elas eram bioandroides, quimeras, todas dotadas de poderes psiônicos. — Randolph os fez em nome de uma organização chamada Mordred. Acredito que ele próprio seja um deles. Ah, as coisas que aquelas aras fizeram com elas! Experimentos. Estupro, abuso, dor. Qualquer coisa para quebrar a sua resistência.
Dean/Monkey escutava. Lentamente, as conexões foram surgindo e ele entendeu o que essas memórias tinham a ver com os eventos na BASE. Mas o que ele tinha a ver com isso? Por que Gia de Moleon o escolheu especificamente como portador desse conhecimento? Ele pigarreou, afastando as perguntas. Elas teriam que esperar.
— Então essas garotas geneticamente modificadas se revoltaram contra os experimentos e seus guardas, e foi por isso que elas tiveram que morrer? — Resumiu ele o que tinha ouvido. — Mas uma sobreviveu, enquanto você conseguiu escapar. — É por isso que você está aqui. Para salvá-la.
— Sim — ela respondeu, a palavra era quase um sussurro. — Foi um massacre horrível. — Eu era sua mentora, sua luz guia. Elas me admiravam durante meu cativeiro, e ainda mais depois que ficamos submersas até os joelhos no sangue dos aras. Mas quando o Número 4 retornou com forças especiais e assassinou todas as quimeras, exceto a primogênita...
— A primogênita?
— Sha-Hir-R’yar. — Eu nunca vou esquecer como estávamos aqui neste salão, de braços dados, e eu jurei que voltaria para buscá-la. Isso foi há dois anos.
— Por que agora? — Dean/Monkey pressionou. — Por que você não voltou naquela época e cumpriu sua promessa?
Sua cabeça afundou ainda mais, seu queixo tocando o peito. Ela começou a tremer, e Dean/Monkey resistiu à vontade de abraçá-la, de confortá-la. O profissionalismo exige distância.
Cat ergueu os braços, buscando palavras.
— Eu... eu não consegui — ela conseguiu dizer, cada sílaba parecendo causar-lhe agonia. — De volta à Terra, eu queria entrar em contato com o STL. — Procurei contato com Gia de Moleon. Mas o único com quem consegui contato foi um certo Reynar Trybwater. Um chefe dos agentes. Departamento Zero. Isso significa alguma coisa para você?
Dean/Monkey ficou tenso; de repente, ele estava eletrizado. Ali estava, a conexão que ele procurava. “Trybwater” repetiu ele, esfregando a testa. — Um agente do STL?
— Um traidor. — Alguém que trabalhava secretamente para a Mordred. Assim como provavelmente seus superiores.
“Reichmann!” Dean/Monkey ficou estupefato. Ele sentiu tonturas. “O peepsie tinha razão. A conspiração da Lemúria atinge os mais altos escalões da LTL.” E Mordred estava envolvido, talvez até mesmo manipulando os bastidores.
— O que Trybwater fez?
— Ele me manteve presa. — Declarou-me insana. Passei dois anos em um hospital psiquiátrico, mantida no local por meio de algemas. Só então consegui escapar dali.
— E agora você está aqui para concluir o que começou naquela época — concluiu ele ao contar a história dela. Ele tinha certeza de que agora havia aprendido tudo o que Gia de Moleon queria lhe contar. Com certeza ele acordaria imediatamente, se encontraria de volta a bordo da BASE e seria capaz de compartilhar seu conhecimento com o somerense. Camelot deve cuidar disso. Aparentemente, o STL foi comprometido, até a raiz. Provavelmente não havia ninguém ali em quem ele pudesse confiar completamente.
Mas a memória de Monkey não o deixava ir. Ele continuava prisioneiro dentro do asteroide de pesquisa, encontrando-se no corpo do oxtornense como se fosse o seu próprio.
Um grito ecoou, prolongado e repleto de horror, e o okrill ficou nervoso novamente. Dean/Monkey levantou a cabeça, e sua companheira fez o mesmo. Seus olhares se encontraram, a respiração de Cat ficou acelerada, em suspiros curtos, quase mecânicos.
— Sha-Hir-R’yar — ela sussurrou. — Reconheço sua voz. — Ela vive.
— Ei, Shaker — Dean/Monkey tranquilizou seu okrill dando-lhe um tapinha no pescoço novamente. Sua boca estava entreaberta, na largura de uma mão. Ele mostrou a língua de forma ameaçadora. Um fino fio de saliva escorria das mandíbulas abertas, acumulando-se no queixo e formando uma gota viscosa. O oxtornense/terrano olhou em volta.
— Lá em cima — sussurrou ele para Cat Deveroux, apontando para uma escada embutida na parede externa de um dos tanques. Lá de cima, ele esperava ter uma visão melhor do salão. Ele empurrou bruscamente a terrana à sua frente, incentivando-a a subir a escada. Ele esperou até que ela chegasse ao topo e se deitasse de bruços, então se virou para o okrill.
— Ei, Shaker — sussurrou ele, fazendo um gesto de comando com a palma da mão. — Fique.
O animal sibilou, deixando sua língua de um metro de comprimento voar pelo ar. Ouviu-se um estrondo alto, como um estalo de chicote. Dean/Monkey fez uma careta. Espero que ninguém tenha ouvido isso! O que havia de errado com ele? Ele estava se comportando de maneira incomum, um tanto rebelde.
— Ei! — Fique.
Finalmente, o okrill obedeceu e rastejou para debaixo de um dos tanques, onde se encolheu. Satisfeito, Dean/Monkey agarrou um dos degraus e se içou para cima. Ao chegar ao topo, ele se virou de bruços e se deitou ao lado de Cat Deveroux. A mulher olhou fixamente para ele, suas pupilas brilhando intensamente.
— Eu consigo vê-los — sussurrou ela, a meia-voz, apontando para a borda do tanque de reprodução. — Lá. — Nesta maca. Ela é mantida no lugar por campos de contenção. E o número quatro está com ela.
Atrás do tanque, o corredor estava praticamente vazio, exceto por alguns armários de parede e equipamentos cujo propósito era incerto para Dean/Monkey. A maca a que Cat se referia era uma espécie de cama médica, completa com equipamento de análise e projetores de campo de imobilização. Ao lado dele estava um homem gordo, de cabelos brancos e olhos avermelhados, com aparência desleixada. O estranho era obviamente um arcônida ou, pelo menos, de ascendência arcônida.
— Quem é esse? — ele sussurrou.
— Número Quatro — declarou Cat Deveroux, como se isso dissesse tudo. Cabia a Dean/Monkey deduzir o resto: presumivelmente, esse Número Quatro era um membro de alto escalão da Mordred. Ele tentou memorizar seu rosto: as feições austeras em torno do nariz estreito e bem definido. Talvez mais tarde, depois que ele acordasse, a identidade do estranho pudesse ser descoberta.
Só então ele percebeu a mulher deitada na cama médica, presa por amarras. Ela estava nua, com a pele coberta por pelos manchados. Ela soltou outro grito fraco, empinando-se contra o campo. Foi uma luta inútil; os projetores suportaram os esforços sem esforço. Agora ela sibilava, contorcia-se para frente e para trás, seus movimentos sugerindo uma elegância felina. Dean/Monkey reconheceu genes kartanins e um arrepio percorreu sua espinha. McNair realmente criou algumas quimeras horripilantes; em sua busca pela perfeição genética, ele aparentemente prosseguiu sem escrúpulos.
Ele conhecia a primogênita ou, pelo menos, já a tinha encontrado antes. Ela era Shahira. A mulher-gato, que, junto com o mashratano Nelder e o terrano Pergel, queria atacar o somerense e o peepsie. Que ele havia paralisado e deixado no corredor do lado de fora dos aposentos de Sco-Chii.
— Ela é uma delas — afirmou ele, sentindo a garganta seca. — Eu a vi lutando por Mordred.
— Você deve estar enganado — sussurrou a terrana, atônita. Dean/Monkey mordeu a língua. É claro que Cat Deveroux não sabia nada disso; os eventos na BASE ainda estavam no futuro para ela. Aquela lá embaixo era uma versão mais jovem de Shahira, uma que talvez tivesse acabado de começar sua jornada rumo à escuridão. Naquele mesmo instante, Will Dean percebeu que Monkey e Cat Deveroux não conseguiriam salvar a criatura híbrida. Mordred a conquistaria. Aquele arcônida gordo, Número Quatro, quebraria a vontade dela.
— Eu estava te observando — disse ele naquele momento, e com uma facilidade despretensiosa, deixou seus dedos deslizarem entre as coxas dela. — As câmeras não perderam você de vista. — A criatura felina se enrijeceu ao seu toque, tremendo e cerrando os dentes, soltando um gemido baixo. Ao mesmo tempo, Dean/Monkey sentiu Cat Deveroux enrijecer ao seu lado. Ela não havia mentido. O destino da quimera a comoveu profundamente, muito profundamente mesmo.
O arcônida moveu a mão um pouco mais para cima, agarrando a quimera pela virilha. Ele se abaixou até sua vítima e, em tom de brincadeira, mordeu sua orelha. Ele disse baixinho: — Eu poderia te possuir. — Aqui e agora, repetidamente. Você sabe como os aras faziam.
— Os aras morreram por isso — sibilou a criatura. O arcônida deu uma risada seca, endireitando-se e retirando a mão de entre as pernas dela.
— É uma pena que você seja apenas uma mestiça impuro. — Você só profanaria minhas genitais. — Mais uma vez, ele se inclinou para ela e acrescentou enfaticamente: — Você é um lixo genético. — Mas você é nossa propriedade. E nós vamos usar você. Você deverá se submeter.
Shahira virou o rosto o melhor que pôde, dadas as limitações de suas amarras. — A heroína vai me salvar — respondeu ela, tentando visivelmente parecer calma. Ela não era uma boa atriz.
Will Dean se lembrou de um detalhe, uma pequena coisa que ele havia notado na BASE e que não conseguira entender: “Ela matou Celine Ahornd para impedir que Nelder infligisse mais crueldades a ela.” Mesmo nos dias de hoje, a bondade em Shahira não parece ter desaparecido completamente. De repente, ele sentiu algo parecido com pena, reconhecendo nela a criatura sofredora e quebrada em que o Número Quatro a havia transformado. A raiva cresceu dentro dele, instalando-se como um véu vermelho sobre sua percepção.
Cat Deveroux se mexeu e agarrou a manga de Dean/Monkey. Ela se agarrou firmemente, com os olhos brilhando de lágrimas.
— Ela está falando de mim — sussurrou ela. “a heroína.” Era assim que as garotas me chamavam.
Como se a tivesse ouvido, o Número Quatro gritou para a quimera: — Sua heroína está morta. — Ela nunca virá, ela se esqueceu de você.
Então, mais rápido do que Dean/Monkey pôde reagir, Cat saltou. Ele tentou agarrá-la, querendo obrigá-la a voltar para o esconderijo, mas já era tarde demais. Ela chamou o arcônida:
— Não, ela está viva. — E ela está aqui.
Foi um daqueles momentos em que o tempo pareceu parar. Um cansaço profundo dominou Dean/Monkey; ele pressionou a testa contra o metal frio sobre o qual estava deitado e enviou uma oração silenciosa aos céus: “Grande Deus! Deixa eu acordar! Isso não vai acabar bem.”
O Número Quatro agiu de forma diferente do que Dean/Monkey esperava. O arcônida sorriu, mas sem qualquer malícia. Mais parecido com um pai cujo filho acabou de dizer algo engraçado.
— Eu sei — disse ele, e quando Cat saltou do tanque num único pulo, seu sorriso se alargou. Com uma reverência perfeitamente executada, ela pousou a seus pés, quase como uma bailarina.
Dean/Monkey estava com os nervos à flor da pele; ele não gostava da compostura do arcônida. O que aquele cara estava aprontando? Ele se levantou rapidamente e saltou atrás da terrana; para ele, com sua constituição compacta de oxtornense, foi apenas um pequeno salto, assim como para a terrana geneticamente modificada. Então ele parou em frente ao Número Quatro e olhou para ele de cima; ele era bem mais alto que ele. O arcônida exibia uma fileira de dentes amarelos. Restos de comida estavam presos nos espaços entre os dentes.
— Bem, quem temos aqui?
Dean/Monkey não respondeu; ele tirou o radiador do coldre e apontou para o homem gordo. Ele bateu, rindo sinceramente, num pequeno dispositivo preso ao cinto. Um efeito cintilante surgiu ao seu redor. Monkey praguejou; o estranho acabara de ativar um campo defensivo individual. Quase como se ele já esperasse um assalto como esse.
— Vejo que Reichmann cumpriu sua palavra e entregou o material genético de oxtornense que eu queria.
Mais uma vez, Monkey não teve tempo de processar o que tinha ouvido. Um movimento no canto do olho o fez se virar. Um drone de combate emergiu de um campo defletor e flutuou em sua direção, apontando o cano cilíndrico de uma arma paralisante para ele. O oxtornense correu para o lado no exato momento em que o robô abriu fogo. “Uma armadilha.” Um arrepio percorreu seu corpo enquanto ele deslizava pelo chão e batia com a cabeça em um dos tanques. “É tudo armado. O Número Quatro sabia o tempo todo que estávamos aqui.”
— Cat! — ele gritou, gesticulando na direção dela. Entretanto, a terrana havia se abrigado atrás de outro tanque; seu aviso sequer fora necessário. Enquanto isso, a quimera olhava na direção dela, sem conseguir virar a cabeça.
— Cat! — ela também gritou, com uma expressão de súplica silenciosa.
Outro robô revelou sua verdadeira identidade, flutuou em direção à ruiva e abriu fogo. O calor fazia o ar ferver, cintilava e roubava a visão de Monkey por alguns segundos. Com um estrondo, o raio mergulhou no tanque atrás do qual Cat Deveroux estava escondida. O metal derreteu num instante, pingando viscosamente a seus pés. Cat empalideceu.
“Radiador térmico”, reconheceu Dean/Monkey, e levou um susto. Uma arma mortal. De repente, ele percebeu: o Número Quatro queria ele. O paralisador era para ele. A esposa do cientista McNair, por outro lado, aparentemente não tinha importância para ele; sua morte presumivelmente fora um efeito colateral bem-vindo.
Seus pensamentos o distraíram. Outro disparo paralisante surgiu, atingindo-o na perna. A dormência se espalhou para a parte inferior da perna.
— Shaker! — gritou ele, o mais alto que pôde. O arcônida tapou os ouvidos.
— Não precisa gritar assim, meu caro Monkey — disse ele calmamente, provando que sabia exatamente com quem estava lidando. — Meus robôs já assumiram o controle de seu okrill há muito tempo. — Neste exato momento, ele provavelmente já está a caminho de um de nossos tanques.
Dean/Monkey soltou um rugido furioso. Ele saiu de seu esconderijo, arrastando a perna paralisada atrás de si. Em seguida, ele ergueu sua arma e apontou-a para o arcônida. Foi uma tentativa desesperada de se levantar, mas ele já não controlava mais seus sentidos: Monkey disparava, repetidamente, a raiva o enlouquecendo. Disparo após disparo atingiu o campo defensivo individual do arcônida. Ele finalmente ficou com medo e deu um passo para trás. O campo defensivo começou a balançar. Não demorou muito para que começasse a piscar e, eventualmente, entrasse em colapso. Mais uma tentativa. E mais uma. “Finalmente desista, projetor idiota!”
Em sua fúria, ele deixou de prestar atenção aos dois robôs; sua consciência bloqueou completamente o perigo iminente. A estratégia saiu pela culatra: de repente, seu robô estava acima dele, e o paralisador o atingiu em cheio no peito. A arma caiu de sua mão, então ele desabou fracamente e bateu o queixo no chão. Estrelas dançavam diante de seus olhos, e o horror o dominou: ele estava paralisado, como analisou imediatamente, mas ainda estava consciente. Indefeso. Desamparado. Qualquer coisa que o Número Quatro quisesse fazer com ele, ele experimentaria por completo.
Por favor, me deixem acordar logo!
O arcônida aproximou-se do oxtornense, agarrou a radiador com a ponta dos dedos e estendeu-a como um lenço usado. Ele estalou a língua em sinal de desaprovação.
— Cat — gritou a quimera no silêncio repentino. Monkey, incapaz de virar a cabeça, não viu sua expressão facial, mas o som de sua voz foi suficiente: resignada, impotente.
Cat Deveroux pressionou as costas contra o cilindro de aço meio derretido. Uma transformação inexplicável estava ocorrendo dentro dela. De repente, ela pareceu desfigurada, toda a determinação havia desaparecido de sua expressão, dando lugar a um horror indescritível. Ela abria e fechava a boca, jogava a cabeça para trás e para a frente, pressionava as palmas das mãos contra os ouvidos como se estivesse ouvindo vozes.
— Sinto muito — disse ela finalmente, e sua voz soou incrivelmente triste. — Não consigo, Shahira... a lembrança. — É demais. Demais!
E então ela fugiu. Seus passos ecoaram pelo corredor; eles se afastaram rapidamente. Cat Deveroux havia abandonado a quimera.
— Cat... — chamou a criatura felina pela última vez. Mas já não era um pedido de socorro, e sim uma exclamação de decepção. E então, como se sua força vital tivesse se extinguido, ela cessou toda a resistência. Seu tremor cessou, ela não se ergueu mais, simplesmente ficou deitada ali. Quando o arcônida desativou seu campo defensivo individual e pressionou a mão contra a parte interna da coxa dela novamente, ela permaneceu imóvel.
— Está vendo? — Dean/Monkey ouviu o arcônida dizer, enquanto tentáculos metálicos se moviam em torno de seus braços e quadris, erguendo-o suavemente. Ele tentou em vão se defender, mas não conseguiu. A paralisia era completa; duraria horas. O arcônida continuou falando, e Dean/Monkey suspeitou que aquelas eram as palavras que destruiriam a mulher-gato para sempre:
— Ela te traiu pela segunda vez. — Ninguém vai te salvar. — Não há futuro para você além da Mordred.
BASE, ao mesmo tempo
Ding, ding.
Sam olhou surpreso para a entrada quando o alarme da porta soou. Sco-Chii deu um pulo como se estivesse esperando uma visita, deixando Will Dean sofrer sua convulsão. Sam tentou agarrá-lo rapidamente, mas o terrano se ergueu e se livrou dele. A saliva espumosa voou de sua boca, espalhando-se pelas penas de Sam. O somerense limpou o peito largo com desgosto.
— Você acha que é sensato abrir? — exclamou ele, em seu jeito rebuscado de falar de sempre. — Há pouco tempo você era contra um pedido de ajuda. — Você não acha provável que o visitante desconhecido seja um de nossos adversários?
— Será que terroristas tocariam a campainha?
Uma pergunta simples, tão banal que o somerense não conseguiu pensar em uma resposta adequada a princípio. Antes que ele pudesse protestar, o peepsie também abriu a porta.
Pouco depois, um homem alto, barbudo e com cabelo ruivo curto entrou na sala. Ele vestia traje de combate, tinha um paralisador à mão e, por um instante que pareceu uma eternidade, a maior preocupação de Sam era de onde tinham vindo todas aquelas armas, apesar das verificações de segurança.
O homem empurrou o peepsie para o lado com facilidade. Mais dois homens barbudos entraram atrás dele, posicionando-se à direita e à esquerda da porta. Sco-Chii guinchou em protesto, e o homem alto estendeu o dedo indicador em sinal de advertência. Isso silenciou o intermediador de informações.
“Mordred”, pensou Sam fracamente, e soltou o terrano que ainda se debatia. Ele olhou acusadoramente para Sco-Chii. Por que ele abriu a porta daquele jeito? “Pronto. Tudo acabou. Rhodan e Adams ficariam muito desapontados.” Se é que ele sobreviveria o suficiente para confessar seu fracasso a eles.
— Não sejam tão rudes, meus queridos. — Esta é uma visita de cortesia, não uma missão de combate.
A voz que disse isso veio de fora. Mal ela terminou de falar, uma figura disforme apareceu na porta: ombros largos, cabelos ruivos na altura do punho, queixo proeminente e vestida com um uniforme extravagante que não favorecia muito sua silhueta.
— Kellonda! — exclamou Sam, e uma dúzia de pedras caíram de seu coração. Ele exalou ruidosamente e caiu de costas. — De onde...
— Sco-Chii não é o único com bons contatos — interrompeu a saltadora – qual era a obsessão de todos com seus contatos e recursos ultimamente, era algum tipo de competição? E entrou na suíte. Tyler e Japar a seguiram, ambos sorrindo. A chegada dela não tranquilizou Sam. Como haviam chegado à sua procura nos aposentos do agente do STL era um mistério para ele. No entanto, ficou comprovado que a suíte de Dean não era um lugar seguro. Sua tensão retornou repentinamente.
Japar deixou a porta deslizar e fechar atrás de si, enquanto Kellonda avaliava a situação. A cena que se apresentou foi estranha: Sam, com as penas dobradas, deitado de costas e respirando com dificuldade. Bem ao lado dele estava o terrano Will Dean, ainda atordoado e com a fala arrastada. Por fim, Sco-Chii, que estava ao lado do homem alto com a cabeça baixa, mexia desajeitadamente no tradutor em frente ao peito. Tyler se aproximou da saltadora e apontou para Dean.
— Quem é a enguia elétrica?
Japar grunhiu, ou talvez tenha sido uma risada contida. Kellonda lançou um olhar fulminante para os dois e depois se virou para o heeninniyense:
— Este é o agente do STL de quem você me falou? — Este... Wes Golem?
Sco-Chii guinchou animadamente. O tradutor traduziu de forma calma:
— Sua identidade falsa. — Sco-Chii agora sabe seu nome verdadeiro. Will Dean.
Kellonda ergueu as sobrancelhas e abriu a boca num silencioso — Ah. — Então, de forma um tanto indelicada, começou:
— Como informante, você se tornou inútil, Sco-Chii. — Agora que esses estranhos terroristas te escolheram como alvo, o risco é muito grande para mim. Não quero que eu ou meu pessoal nos envolvamos nisso.
O corretor de informações endireitou-se imediatamente, ergueu o punho, pronto para protestar. Kellonda fez um gesto conciliatório.
— Devo-te um favor, heeninniyense, pela tua lealdade. — Mas o seu futuro não é aqui. — A BASE se tornou perigosa demais para você. — Como se isso dissesse tudo o que importava, e sem dar atenção à tagarelice irritada de Sco-Chii, ela se virou para Tyler. Ela prosseguiu em tom de ordem: — Alguém precisa escoltar o peepsie até a nossa filial. — Você cuida disso. Vou incluí-lo em meus serviços e continuarei cuidando do seu cliente. Acho que estou tirando um peso dos seus ombros.
— Você disse tudo — murmurou Japar, indistintamente. Tyler cutucou o amigo no quadril com o cotovelo, e ele balançou a cabeça negativamente.
— Temos uma relação contratual com a somerense — rebateu ele.
Sam não conseguiu conter o sorriso ao ouvir essas palavras, e ainda bem que suas expressões faciais eram tão difíceis de decifrar para os lemúridas. A polícia de Olimpo havia imposto um acordo contratual aos seus companheiros: guarda-costas para Sam ou prisão, esse era o acordo. Livrar-se finalmente desses dois era, sem dúvida, uma perspectiva tentadora. E mais: ao serviço da saltadora, os dois vagabundos poderiam acabar se revelando úteis para alguma coisa.
— Uma oferta extremamente tentadora — exclamou Sam, rindo. — Eu aceitaria se fosse um de vocês!
— Não — disse Tyler secamente, acenando com a mão em sinal de desdém. Ele estendeu a mão para Sco-Chii e o agarrou pelo braço. — Não daria certo, Kellonda. — Nós dois nos arrependeríamos, você sabe disso.
— Sim — respondeu ela hesitante, fazendo beicinho. — Isso provavelmente é verdade. Talvez fosse melhor você ficar com ele.
Um silêncio constrangedor se instalou entre eles, permanecendo ali por uma eternidade. Então Kellonda espantou os dois homens com um gesto: — Shhh! — Leve Sco-Chii para minha casa. Vocês ainda me devem esse favor. Vocês já sabem o caminho desde a última vez.
Tyler respondeu à ordem com um palavrão grosseiro e impróprio para menores e exigiu que Japar abrisse a porta. Kellonda deu uma risada rouca quando os homens com o heeninniyense desapareceram pelo corredor. Ao mesmo tempo, com um aceno de cabeça, ela ordenou a seus três soldados que se posicionassem do lado de fora, no corredor. Os mehandors obedeceram sem dizer uma palavra.
Assim que ficou sozinha com Sam e o terrano inconsciente, ela ficou repentinamente séria.
— E agora, falando de vocês dois — disse ela, inclinando-se na direção de Will Dean. Ela tocou suas têmporas e falou com ele de forma suave e reconfortante. Sam não entendeu o que ela estava lhe dizendo, mas fosse o que fosse, pareceu funcionar: o terrano ficou imóvel e parou de se contorcer. Sua respiração tornou-se mais superficial e, se Sam não o conhecesse bem, teria pensado que o agente estava dormindo.
— O que há com ele, somerense? — sussurrou a mehandor. Naquele momento, ela tinha uma aura quase maternal; Sam jamais teria imaginado isso possível. Ele deu de ombros.
— Memórias implantadas. — Liberados por uma palavra-chave. Ele parece reviver o passado de outra pessoa.
— Hum, ruim — murmurou Kellonda, franzindo os lábios; toda a exuberância havia desaparecido de sua expressão. Ela deu um tapinha no peito de Will Dean. — Os terroristas que este homem do STL atordoou em frente ao quartel-general de Sco-Chii já acordaram. — Aparentemente, eles são responsáveis pela segurança a bordo e em breve devem encontrar Will Dean e seus aposentos. Precisamos sair daqui, tirá-lo daqui.
— Então, qual era o motivo de não termos ido juntos com Tyler e Japar para os seus aposentos? — ele questionou Kellonda.
— Não. — Como eu disse, não quero ser associada a esse assunto. A mehandor balançou a cabeça e pensou por um momento. — Os terroristas viram um somerense, mas como sua suíte está reservada em meu nome, ninguém aparece na lista de hóspedes. — Inicialmente, isso representará um problema para eles. E nos dá tempo.
Enquanto ainda falava, ela pegou o homem inconsciente e o jogou sobre o ombro como se fosse um saco de roupas. Ela sorriu sugestivamente e, sem qualquer dificuldade, transformou-se novamente na mulher terrível que ele havia conhecido: — Então, para os seus aposentos. Voltar para a sua gaiola, passarinho.
Memórias de Will
A escuridão o envolvia. Uma escuridão total e absoluta. Dessa vez, ele sabia, não se tratava de inconsciência. Ele se sentia sem peso, com o corpo nu imerso em um líquido viscoso. E, no entanto, ele conseguia respirar; seus pulmões estavam cheios de oxigênio. Um tubo saía de sua boca, alcançando o fundo de sua garganta e fornecendo-lhe as coisas mais importantes: ar, comida e água. Não havia mais nada para ele. Ele mal conseguia se mexer; havia um espaço apertado ao seu redor. Ao estender os braços, mesmo que apenas um pouco, ele esbarrou em uma parede. A fronteira impenetrável, de aço terconite, do seu novo mundo.
Quantas vezes ele se rebelara, resistira, tentara destruí-los com toda a sua força oxtornense? Às vezes ele ainda conseguia senti-los. Então, se ele não tivesse sido irradiado por um período de tempo mais longo. Se a sensação de formigamento e queimação dos hipercampos não o tivesse deixado sem forças por um tempo.
Assim como agora: Mais uma vez, a raiva o dominou e ele golpeou o metal com toda a força. Vamos! O tanque não cedeu, mantendo-o firmemente preso. Há quanto tempo ele vinha definhando nessa condição? Ele não soube dizer. Dias? Meses? Ele havia perdido completamente a noção de tempo. E às vezes, quando estava particularmente fraco, ele nem conseguia se lembrar do próprio nome. “Will Dean? Monkey?” Qual deles era? Qual era o nome dele lá fora? E: existiu alguma vez um mundo além da escuridão? Será que ele apenas imaginou essa vida passada para se distrair da solidão?
Porem. Havia um lado de fora. E pessoas viviam lá. Às vezes, ele conseguia ouvi-los quando ficavam em frente ao seu tanque, falando sobre ele. Lá! Aconteceu de novo. Ele tinha ouvidos tão bons que conseguia até mesmo entendê-los. Eram aras, ele percebeu pelo som das vozes, e eram dois. Com exceção desses dois, o asteroide, sua prisão, parecia estar deserto.
— A manipulação está progredindo — ele ouviu um dos aras dizer, sua voz aguda abafada pela parede externa. O fluido nutritivo em que nadava conduzia o som excepcionalmente bem. — McNair ficará satisfeito. Este exemplar superará as suas expectativas. Só precisamos quebrar a sua resistência.
— Tropas cinzentas oxtornenses — disse o segundo ara. Sua voz era um pouco mais grave, com um timbre ligeiramente rouco. — Que ideia ousada. — Que plano genial!
“Tropas cinzentas de meus genes”, pensou Dean/Monkey, e sua raiva desapareceu, dando lugar a um desespero impotente. Ele já havia escutado inúmeras conversas desse tipo, mas a ideia não perdera nada de seu poder de terror. Mas ele estava indefeso, não tinha voz. Prisioneiro, seu confinamento solitário pode durar até o fim dos tempos — mantido artificialmente vivo como doador de genes para um exército de oxtornenses manipulados. O pensamento o enlouquecia, e, no entanto, não havia nada contra o que ele pudesse direcionar sua raiva. Seu poderoso batimento cardíaco. Ele sentia como se as paredes estivessem se fechando ao seu redor, como se tentassem esmagá-lo. Ele queria se acalmar, se forçar a respirar mais calmamente. Mas ele já não tinha controle sobre a respiração; haviam até mesmo lhe tirado essa capacidade: num ritmo estoico, o tubo respiratório forçava a entrada de ar fresco em seu peito e sugava o ar viciado. Ele não era mais um ser humano, apenas um amontoado de carne ventilado e alimentado artificialmente. As pontas dos seus dedos se contraíram, um reflexo inútil na escuridão quente.
— O pulso dele está acelerando de novo — disse a ara com a voz rouca, obviamente lendo sus sinais vitais em um visor na base do tanque. — Acho que ele consegue nos ouvir.
Aquele com a voz alegre respondeu: — Vamos ver o que acontece quando ele descobrir que vai receber um passe livre de um dia.
— Hum — resmungou o outro novamente. — Sou contra isso. — Muito perigoso. Vimos o que aconteceu com os híbridos kartanins.
— Se McNair quiser... ah, veja só! — Eu estava certo. A pressão arterial dele está subindo.
Na verdade, Dean/Monkey sentiu como se sua artéria carótida estivesse prestes a estourar. “Passe livre?” Eles queriam deixá-lo sair, respirar ar fresco? Uma réstia de esperança surgiu dentro dele: era esta, a oportunidade de escapar. Por vingança, por...
Ele não terminou o raciocínio. Sem aviso prévio, o tubo foi retirado de sua garganta e o líquido viscoso entrou em seus pulmões. Ele se encolheu e começou a tossir por reflexo — um instinto fatal que tomou conta de seu corpo. A cada vez que inalava mais do líquido nutritivo, ele não conseguia suprimir a tosse. Ele bateu freneticamente contra a parede, mas, como sempre, não surtiu o menor efeito.
Foi esse o fim? Será que as aras estavam apenas brincando com ele, torturando-o uma última vez antes de deixá-lo morrer nesse caldo repugnante, nessa gosma feita de água, nutrientes e suas próprias fezes? Ele não precisava estar vivo para ser um doador de genes. Bastava que impedissem sua decomposição.
A sensação de queimação em seus pulmões se intensificou. Sua visão escureceu, como se a escuridão no tanque já não estivesse completa. Ele se sentia cansado e estranhamente leve, como se estivesse ao lado de si mesmo, observando seus movimentos se tornarem cada vez mais lentos, suas tentativas de se libertar gradualmente se dissiparem.
Por fim, o líquido foi drenado. Densas bolhas de ar se formaram, escorreram por suas costas e estômago e fizeram cócegas em seus braços. Assim que sua cabeça emergiu acima da superfície, sua vontade de sobreviver retornou. Com toda a sua força, ele espremeu o muco dos pulmões, vomitando, tossindo, engasgando, até que tudo, absolutamente tudo, tivesse saído dele. Ele respirou fundo, por conta própria, pela primeira vez desde... ele ainda não sabia. O ar tinha um cheiro rançoso, de ovos podres e fezes. O cheiro de um humano cuja pele não esteve em contato com o ar que respira por muito tempo. Ele arrebatou isso com avidez; era a coisa mais maravilhosa que ele já havia cheirado.
Um frio glacial o dominou, penetrou seus membros e, embora como um oxtornense ele não devesse ser sensível, congelou como nunca antes. Ele começou a tremer incontrolavelmente. O líquido penetrava cada vez mais fundo, chegando agora apenas aos seus mamilos. A leveza desapareceu; o peso do seu próprio corpo o puxou, fazendo-o cair de joelhos.
Naquele mesmo instante, ele soube que não seria capaz de se defender dos aras. O fluido o carregou por tempo demais, como uma dispositivo antigravitacional natural, e ele pôde se mover muito pouco durante todo esse tempo. Seus músculos estavam degenerados, o que, na verdade, era perfeitamente óbvio. Por que ele não tinha pensado nisso sozinho? Teria ele se resignado tanto ao cativeiro a ponto de esquecer conhecimentos básicos sobre sua fisiologia? Ele afundou, impotente, contra a parede, incapaz apenas de levantar o braço. De repente, ele sentiu uma dificuldade incrível para respirar; sua respiração havia sido tirada dele por tempo demais.
Finalmente, o último resquício daquela água fétida escorreu entre seus dedos dos pés. A essa altura, ele sentia como se seu próprio peso fosse esmagá-lo. Ele abandonou suas esperanças: não havia chance de fazer nada contra as aras naquele estado. Essa viagem seria curta, e poderia ser a última vez que ele veria a luz do dia.
Ouviu-se um som sibilante. O rosto de Monkey se contorceu em uma careta de dor, e então a parede à sua frente cedeu. O tanque se abriu, um brilho ofuscante o cegou. Seus olhos; talvez não os usasse há meses. Eles haviam se preparado completamente para a escuridão, e agora se recusavam a servi-lo. Embora soubesse de cor que o salão estava, na realidade, apenas envolto por uma penumbra tênue, isso não o confortava.
A frente do tanque virou para o lado, Dean/Monkey caiu para fora e bateu com força no chão. Sua testa tocou em algo macio e coriáceo. Pareciam botas. Ele devia ter caído diretamente sobre o pé de um dos dois aras.
— Viu, Zhentabor? — disse a ara de voz rouca, com um sorriso irônico para o colega. — Como eu disse. — Nem precisamos de um paralisador.
— Eu me sentiria muito mais seguro se...
— Bobagem.
Com o canto do olho, Dean/Monkey percebeu um movimento; para ele, era apenas um lampejo na luz forte. Provavelmente, a ara acenou para alguém.
— Robô — ele ouviu —, leve-o até seu sapo elétrico. — Vamos ver como corre o reencontro.
O eu interior de Dean/Monkey ficou tenso quando o médico galáctico mencionou o okrill. “Shaker!” Ele percebeu que havia se esquecido completamente do animal, quase não pensando nele durante seu martírio. Ele proferiu um palavrão forte, ou tentou. Presumivelmente, nada além de um coaxar rouco saiu de sua garganta. Só agora ele percebeu como sua garganta estava dolorida depois que o tubo a roçou por tanto tempo.
— Ouça isso! Ele está falando! — gritou a ara, cutucando-o com a ponta do pé. Os dois médicos riram asperamente; a humilhação foi completa. Dean/Monkey nunca antes havia se sentido tão impotente, tão exposto.
O robô surgiu repentinamente acima dele. Como serpentes metálicas, seus tentáculos preênseis deslizaram ao redor do peito de Dean/Monkey. Eles eram frios, muito mais frios que o ar, e pressionavam com força sua pele cada vez mais sensível. O oxtornense teria adorado gritar, bem alto, se tivesse tido forças para isso. Mais uma vez, tudo o que ele produziu foi um chiado abafado, e mais uma vez as aras riram.
Dean/Monkey sentiu-se erguido, como se ainda estivesse sem peso. Quando a máquina o levaram para além dos tanques reluzentes e polidos pouco tempo depois, ele quase se alegrou com sua cegueira. Ele tinha medo do seu reflexo. Ele provavelmente era apenas uma sombra do que fora.
Sem oferecer resistência, ele permitiu que o robô o arrastasse pelo corredor, com os pés arrastando no chão. Vestígios do fluido nutritivo escorreram por seu corpo e pingaram no chão. Deixaram um rastro de gordura enquanto o robô, carregando sua carga, pairava ao redor de uma esquina e se movia em direção a uma maca médica. Pelo menos Monkey suspeitava que aquele era o alvo; ou seja, o maca onde Shahira havia sido aprisionado quando o Número Quatro o dominou.
Sua coragem e vontade de viver retornaram apenas lentamente. Ele tentou reativar os músculos, cerrando os punhos como um teste. Para sua surpresa, ele conseguiu. Encorajado por isso, ele puxou as coxas um pouco para cima até que o robô cedesse sob seu peso. Uma sensação de realização! No entanto, a tentativa lhe custou tanta força que ele imediatamente baixou as pernas novamente.
“Essa maldita fraqueza”, pensou ele. “Essa fleuma.” Ele não se reconheceu. Será que tudo isso foi realmente apenas resultado da sua atrofia muscular? Quanto mais seu raciocínio lógico retornava, menos ele conseguia imaginar. Provavelmente, as aras lhe deram um sedativo.
O robô o colocou na maca e os cintos de segurança foram acionados automaticamente. Suas costas nuas pressionavam o couro frio, e ele desejou ter um cobertor para se aconchegar. Ele tentou abrir os olhos novamente. A tentativa falhou: ele ainda estava cego, não havia se acostumado novamente com a claridade. Ele estava quase ansioso para voltar ao seu tanque. Nada poderia ser pior do que isso.
Ao menos agora ele conseguia reconhecer um pouco mais do que o rodeava. Ele viu que a luz vinha de projetores luminosos no teto e até reconheceu a primeira fileira de tanques, bem à sua frente. Uma caixa havia sido colocada em frente à maca. Um som agudo e sibilante podia ser ouvido vindo dali; devia ser algum tipo de caixa de transporte. Aparentemente, o okrill estava lá dentro.
O coração de Dean/Monkey estava batendo mais rápido novamente. O que esses criminosos tinham feito a Shaker? Os okrill eram criaturas imprevisíveis e obstinadas. Se os pesquisadores tivessem conseguido quebrar a lealdade de Shaker ao seu mestre...
Mas, por outro lado, essa não parecia ser a intenção deles. “Eles querem testar se o okrill ainda responderá após manipulação genética.” Ele conseguia imaginar por que aquilo era importante para eles. Um oxtornense só já era uma máquina de combate humana. Em parceria com seu companheiro okrill, porém, eles formavam equipes capazes de incutir medo nos corações de qualquer halutense.
Uma figura apareceu acima dele e se abaixou. Dean/Monkey tentou reconhecer o rosto. Lágrimas brotaram em seus olhos e escorreram por suas bochechas. A situação piorava a cada piscada.
— Numm... numm — ele resmungou e engoliu em seco. Seu corpo só retomou gradualmente suas funções normais e sua boca se encheu de saliva novamente. Sua língua ainda estava grudada no céu da boca; tudo parecia dolorido e irritado. Isso certamente continuaria sendo assim por algum tempo, mesmo que eles não o colocasse de volta no tanque. Ele reuniu todas as suas forças e se concentrou. — Número quatro — ele finalmente conseguiu dizer, e então afundou de volta no maca, exausto. Ele sentia como se tivesse acabado de correr uma maratona.
— O Número Quatro não está aqui — disse a figura; era o ara com a voz aguda. — Só nós dois, você e seu sapo lutador. — Vamos ver se ele ainda quer cumprimentar seu mestre aprimorado.
A ara recuou e passou vários minutos mexendo na gaiola. Por fim, a porta da gaiola se abriu e, pouco tempo depois, os passos leves do okrill puderam ser ouvidos, associado ao som de suas garras batendo suavemente contra o metal e o plástico. Shaker sibilou e rosnou, Dean/Monkey imaginou-se posicionando-se ao lado da maca, com a língua para fora da boca, farejando. Como a saliva escorria entre os dentes afiados. Shaker estava à espreita. Para quê?
Então o okrill pulou na maca, ficou de pé sobre seu mestre, rosnando, com as garras cravando no braço de Dean/Monkey. O hálito fétido de um predador invadiu suas narinas, mas depois do fedor do seu próprio corpo sem banho, foi quase um alívio.
— Olha! — exclamou uma das aras em tom de deboche. — O sapo diz “olá” para sua mamãe.
O oxtornense sentiu uma sensação de formigamento por todo o corpo à medida que a polaridade do campo de imobilização mudava ligeiramente. O projetor queria agarrar o animal, segurá-lo, provavelmente de acordo com a programação da micropositrônica que controlava o campo. Isso foi suficiente para agitar os sentidos sensíveis de Shaker.
E então o inferno se instaurou.
Shaker gritou como Dean/Monkey nunca o tinha ouvido gritar antes. A última coisa que ele viu foi sua língua de um metro de comprimento saindo disparada de sua boca aberta. Ele rodopiava pelo ar, minúsculos raios lambendo a ponta.
Então a língua desceu sobre ele. Caiu em seu rosto, bem em seus olhos. Houve um estrondo alto e o cheiro de cabos queimados tomou conta do ar.
Dean/Monkey rolou da maca. Nada impediu sua queda quando ele despencou novamente longitudinalmente, caiu com força e rolou no chão, semiconsciente de dor e pânico. Sua respiração era ofegante, os gritos irrompiam de sua garganta em ondas rítmicas, ele era incapaz de controlá-los. A adrenalina percorreu suas veias. Isso o trouxe de volta completamente ao aqui e agora, neutralizando os últimos vestígios dos anestésicos que aqueles médicos insidiosos deviam ter administrado a ele.
Só naquele momento ele percebeu duas coisas. Ele não era o único que estava gritando. E ele ainda conseguia enxergar.
Não era uma visão como ele a conhecia, mas sim uma sensação, como uma fantasia vívida surgindo diante de seu olho interior. As cores estavam erradas, puxando para o azul, e ele notou detalhes que nunca havia percebido antes. A perspectiva também estava errada. Ele sentia como se estivesse a cerca de um metro do chão, como se estivesse olhando para os médicos aras de baixo, e eles, com rostos arregalados de terror e expressões distorcidas, estivessem olhando para ele de cima. Um músculo longo e vermelho saltou de sua boca, derrubando um dos dois médicos. Ele caiu, batendo com a cabeça na gaiola, com o pescoço dobrado num ângulo anormal. Ouviu-se um estalo, e então o homem ficou imóvel. Um fino fio de líquido vermelho escorreu por sua têmpora.
“Shaker!” Dean/Monkey percebeu, num momento de lucidez. Ele viu através dos olhos do okrill, reconhecendo, por meio de sua visão infravermelha, como ele estava perseguindo o segundo ara. Ele levou um instante para se recuperar da surpresa. Claro, ele tinha ouvido dizer que alguns oxtornenses desenvolviam uma relação tão próxima com seus animais que possuíam a capacidade de ver através dos olhos deles. O famoso Omar Hawk deveria ter sido capaz de fazer isso. Uma espécie de telepatia instintiva. Até então, Dean/Monkey sempre havia relegado isso ao reino da lenda. Era isso que estava acontecendo naquele momento? Será que ele sempre fora capaz disso, mas não se dava conta porque suas próprias impressões sensoriais se sobrepunham às imagens exibidas pelo okrill? Ou teria sido isso uma consequência da manipulação genética? Ambas as possibilidades existiam.
O segundo ara também não teve chance contra o ataque do anfíbio. O okrill nem sequer usou a língua; simplesmente saltou sobre ele a partir de uma posição imóvel. Cinco de suas seis patas cravaram-se nas costas do homem em fuga, a sexta deslizou para dentro de seu pescoço. Como se isso não bastasse para quebrar seu pescoço, ele fechou as mandíbulas em volta da parte de trás da cabeça do homem. A ara ainda não tinha tocado o chão quando seu crânio rachou sob a pressão da mordida de Shaker. Um jorro de líquido vermelho escorreu sobre seu casaco; através dos olhos de Shaker, sob luz infravermelha, a torrente de sangue parecia brilhar. Pequenos fragmentos brancos estavam incrustados na fonte. Dean/Monkey tentou desviar o olhar para não ver a cena horrível. Mas não foi o olhar dele que o atraiu, e o okrill não desviou o olhar, mas cravou os dentes no corpo do homem morto, repetidas vezes, como se quisesse se vingar dos experimentos e do aprisionamento. “Por que os aras não anestesiaram Shaker também?”, ele se perguntou. Irresponsabilidade? Arrogância? Ele jamais saberia.
— Ei, Shaker! — ele queria gritar para fazer o animal parar, mas só conseguiu ouvir um “Hhhh” sem voz. Shaker não respondeu. Ele teve que assistir enquanto o morto se transformava em um amontoado de carne ensanguentada, e uma nova onda de dor o dominou ao pensar em seu próprio ferimento. Tremendo, ele se apoiou nos braços, tentando ficar de pé. Ele estava engasgando. Mais líquido nutritivo escorreu de sua boca, embora ele pensasse que já havia vomitado tudo. Misturou-se com o sangue dele. O ferimento que Shaker havia infligido, no entanto, não sangrou tanto quanto ele temia. Presumivelmente, a eletricidade da língua do okrill cauterizou-o instantaneamente. Isso significava que ele sobreviveria por algum tempo. Se ele conseguisse escapar.
O okrill soltou sua vítima e ergueu a cabeça. Ele fungou. Dean/Monkey conhecia esse gesto; não significava nada de bom. O animal estava em frenesi sanguinário; já havia matado uma vez, e o faria novamente. Pior ainda: havia atacado seu dono. Como se ele fosse um estranho. Será que Shaker algum dia o reconheceria novamente?
O okrill aproximou-se dele lentamente, à espreita. Dean/Monkey se viu pelos olhos do predador, deitado no chão, ainda nu, contorcendo-se de dor. A pele escamosa de Shaker roçou em suas costas; era áspera ao toque. Por alguns segundos, a língua de Shaker ficou pendurada de forma ameaçadora para fora da boca, tremendo para frente e para trás.
— Faça isso — ele respirou resignado. — Acabe logo com isso. — Bastaria um breve espasmo muscular, e o órgão saltaria, o atingiria e o eletrocutaria. Em seu estado debilitado, o golpe o mataria, sem dúvida. Dean/Monkey sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Isso também era um reflexo inútil. Como todos os oxtornenses, ele nasceu sem pelos no corpo.
Dean/Monkey prendeu a respiração e, enquanto contava lentamente os segundos, aceitou a morte. Esse não era o animal que ele conhecia, aquele que ele havia criado. Os experimentos mudaram isso. Shaker havia se tornado imprevisível, um risco. Ele se deixaria guiar pelos instintos e o mataria. Acabou.
Mas o milagre aconteceu. O okrill se acalmou. Sua língua desapareceu dentro da boca; em vez disso, ele cutucou o oxtornense com a ponta do nariz e grunhiu satisfeito.
E então ele espirrou. A meleca espirrou molhada na pele de Dean/Monkey, e ele quase chorou de alegria. Porque um okrill espirrando era alguém que se sentia bem. Shaker havia voltado a ser o mesmo de antes — pelo menos por enquanto.
Dean/Monkey não pensou muito; ele tinha que aproveitar a oportunidade antes que okrill mudasse de ideia novamente. Ele se levantou rapidamente, apoiando-se nas costas largas do predador.
— Para o hangar, Shaker — sussurrou ele para ele. — Leve-me até um planador. — O okrill sabia o caminho; afinal, eles tinham chegado juntos. Agora ele lhe emprestaria seus olhos, guiando-o com telepatia instintiva. E, uma vez lançado o planador, o piloto automático sintrônico o levaria em segurança para a Terra. E ali o público ficaria sabendo sobre o AX823P, sobre Mordred e as maquinações de Trybwater e McNair. Se tudo corresse bem.
Monkey sentou-se e, desta vez, finalmente, Dean sentiu sua consciência separada da do oxtornense.
“Eu sou Will Dean”, pensou ele, como se fosse algo que tivesse esquecido há muito tempo. “Eu não sou Monkey.”
Enquanto o oxtornense iniciava sua fuga, meio caminhando, meio apoiado nas costas de Shaker, o terrano se distanciava cada vez mais dele — até se encontrar logo abaixo da superfície da água, o que simbolizava sua inconsciência. Ele deu uma última braçada e então emergiu.
Era hora de acordar.
Figura aterradora
— Trybwater! — gritou Will Dean, e suas pálpebras pararam de tremer. Sam tocou a mão dele com hesitação, sem saber o que fazer. Durante uma hora e meia, o agente da STL ficou se revirando na cama, murmurando coisas incoerentes para si mesmo, aparentemente preso em sua memória implantada. A lembrança de um homem chamado Monkey, era tudo o que Sam conseguira deduzir dos fragmentos de frases gaguejadas.
O toque pareceu acalmar o terrano. Sam soltou-se e afastou-se do sofá. Eles agora estavam nos aposentos que a saltadora havia designado para ele e seus companheiros, conforme o planejado. Kellonda deitou o homem inconsciente no sofá e rapidamente colocou almofadas no chão em frente a ele para que ele não se machucasse caso caísse. Sam lançou um olhar inquieto para o relógio de parede. Tyler e Japar ainda não tinham reaparecido, aparentemente ainda estavam ocupados contrabandeando o peepsie da BASE em nome dos mehandors. A própria saltadora também se mantivera discreta por cerca de uma hora. Negócios importantes a aguardavam, como ela havia enfatizado. Sam não se importava; o maior perigo provavelmente já havia passado. Era a inquietação que o perturbava. Um terrano inconsciente não era exatamente uma companhia agradável.
— Estou acordado — ouviu-o dizer naquele exato momento, e Sam levou um susto. Ele já havia perdido a esperança de acordar em breve, preparando-se inconscientemente para uma espera mais longa. Ele ficou ainda mais satisfeito quando Will Dean finalmente abriu os olhos. O agente do STL sentou-se desajeitadamente e se espreguiçou. Ele parecia relaxado, como se tivesse apenas tirado um breve cochilo. Mas quando olhou em volta, seu rosto assumiu uma expressão aflita.
— Este não é o meu alojamento — afirmou ele finalmente, e então avistou Sam. — Eu te conheço. — Ele passou as pontas dos dedos pelos lábios várias vezes, aparentemente refletindo. Então ele bateu na testa, como se quisesse se punir por sua memória ruim. — Sam — disse ele. — O somerense… — O Espião de Adams. — Já faz muito tempo, receio.
— Longo — disse Sam, prolongando as palavras. As penas de sua cabeça se eriçaram. Num impulso, ele correu até o bar do quarto e pegou um copo na prateleira atrás dele. Ao se aproximar do balcão e servir um gole de água ao terrano, ele perguntou: — Onde você esteve nestes últimos minutos, Will Dean? — O que você vivenciou em sua imaginação? Que lembranças passaram pela sua mente?
— Minutos — respondeu o terrano, com um tom melancólico e também um pouco horrorizado. Então ele riu. O som era frágil, como o de lajes de pedra se esfregando umas contra as outras. — Aqueles foram dias para mim. Semanas, talvez. — Ele balançou a cabeça. — Difícil dizer. — Eu não tinha noção de tempo.
— Você conversava incessantemente durante a sua... visão.
Sam voltou para o sofá e apertou o copo contra a mão. Dean aceitou com gratidão. Ao mesmo tempo, ele lançou um olhar indefinível para o somerense.
— Quem é essa pessoa chamada Monkey? — insistiu Sam. — Você mencionava o nome dele. — O que você vivenciou por meio dele?
— Monkey...
O terrano parecia encontrar o caminho de volta à realidade apenas lentamente. Ele falou hesitante e em palavras breves, relembrando as memórias do oxtornense, sobre suas experiências no asteroide AX823P e tudo o que havia aprendido com isso. Ele contou a Sam sobre as ligações entre o Departamento Zero, Trybwater e McNair, e, portanto, também sobre Mordred. Ao chegar à parte em que o okrill Shaker fugiu e na perda da visão de Monkey, ele fez uma breve pausa e tomou um gole profundo e ávido do copo-d’água antes de concluir:
— Monkey finalmente conseguiu escapar. — Na Terra, seus olhos foram substituídos por implantes de olhos de câmera artificiais SAC porque seu corpo geneticamente modificado rejeitou todos os implantes que haviam sido cultivados em laboratório. Shaker foi levado para um recinto onde provavelmente permanece até hoje. Após a recuperação de Monkey, o okrill deixou de reconhecê-lo como mestre.
— Isso não responde à minha pergunta. — Afinal, quem é esse Monkey?
— Ah — disse Dean. — Um agente do STL. — Ele já havia trabalhado no duvidoso Departamento Zero. Em 1289, Monkey estava no STL, em Alashan...
— Entendi. E o que aconteceu com McNair?
Dean segurou o copo com firmeza, encarando o líquido como se pudesse encontrar ali a resposta para a pergunta de Sam. Por fim, ele tomou um segundo gole e colocou o copo vazio sobre a mesa de centro à sua frente. Ele pigarreou.
— A partir deste ponto, a memória fica confusa — respondeu ele. — Uma equipe de operações especiais do STL foi enviada ao asteroide AX823P para escavá-lo. — Ele fez um gesto indefinido. — Eles não encontraram nada. — O pássaro já tinha voado para longe. Se me permite a piada.
Ele piscou maliciosamente para somerense, e o somerense respirou aliviado. Lá estava ele de novo, aquele traço travesso que ele já havia notado no agente. Ele pareceu se recuperar rapidamente, voltando a ser cada vez mais ele mesmo. Isso foi reconfortante.
— Então prossiga — exigiu Sam, que, apesar de tudo, não tinha o menor interesse em expressões idiomáticas e jogos de palavras terranos.
— Está ficando cada vez mais vago — respondeu o agente do STL. — Reichmann deve ter chantageado Gia de Moleon, ameaçando revelar ao público a existência do Departamento Zero caso se descobrisse algo sobre a presença de Monkey no asteroide AX823P.
— Então essa história vergonhosa foi varrida para debaixo do tapete? — perguntou Sam, usando involuntariamente uma expressão terrana. Will Dean assentiu com a cabeça.
— Um evento sem precedentes. — A situação é tão ultrajante que o chefe do STL tomou precauções. — Para guardar a verdade em algum lugar onde nenhum especialista em dados pudesse apagá-la. — Ele tocou a têmpora com uma expressão que Sam interpretou como uma mistura de orgulho e orgulho ferido: — Aparentemente, eu era esse backup. — Em todo caso, o Departamento Zero foi dissolvido em 1282 por ordem de Paola Dashmagan. Não sei o que aconteceu com Reichmann e Trybwater. Michael Shorne não foi processado por isso, em todo caso.
Sam começou a responder. Mas antes apenas que ele pudesse abrir o bico, um clarão iluminou a suíte. O raio correu em sua direção, atingiu-o em cheio e o derrubou. “O fogo de um dispositivo de choque”, ele reconheceu, mas seu cérebro se recusava a entender o que estava acontecendo. Houve um segundo relâmpago, e desta vez Will Dean foi atingido.
“É isso aí”, pensou ele enquanto caía no chão, “eles nos pegaram.”
A última coisa que ele viu foi uma figura aterradora emergindo de um campo defletor — o mesmo truque que Dean havia usado antes. Ele caiu nessa pela segunda vez. Sam carregou o terror consigo para a escuridão que o cercava.
FIM
Mordred parece estar ativo há mais tempo do que suspeitávamos anteriormente. Já sabemos que a organização terrorista tem amigos em altos cargos. No entanto, o fato de o próprio STL estar agora envolvido também é muito preocupante.
O Departamento Zero — que foi fechado pela Primeira Terrana, Paola Daschmagan — estava envolvido em experimentos genéticos. Aparentemente, as Indústrias Shorne foram contratadas para realizar este projeto. Só isso já é moralmente repreensível, mas quem disse que as agências de inteligência estão sujeitas à moralidade?
Muitos híbridos morreram durante os experimentos. Este é o ponto em que o STL deveria ter intervido, no máximo. Mas o Departamento Zero aparentemente gozava de total liberdade, e Walter Reichmann, o misterioso chefe desse departamento, parecia jogar um jogo duplo, já que Mordred estava envolvido.
Essa trama só foi descoberta, graças à fuga de Monkey, o então ainda desconhecido agente da STL do Departamento Zero.
No entanto, as consequências no outono do ano 1283 NCG foram bastante leves. Monkey e De Moleon permaneceram em silêncio. Ao menos Moleon e Monkey garantiram sua segurança com um reforço humano na figura de Will Dean, para quem as memórias de Monkey foram transferidas.
As Indústrias Shorne sacrificaram seu diretor de segurança, McNair. Shorne era poderoso demais e valioso demais para a economia terrana. O caso Mashratan já o havia prejudicado muito.
Dashmagan proibiu o Departamento Zero. Reichmann desapareceu de cena, Reynar Trybwater foi demitido e passou a trabalhar no setor privado. Outros agentes STL do Departamento Zero foram realocados para sistemas solares distantes. A LTL considerou este capítulo demasiado embaraçoso para o tornar público.
No entanto, um fato foi plenamente ignorado: o interesse desse grupo em um Império Lemurense, que foi mencionado apenas de passagem. Parece que esse motivo também serve de incentivo para Mordred. Será que esse Walter Reichmann é Rhifa Hun, o líder dos Mordred?
Departamento Zero
Da Perrypedia:
O Departamento Zero era um departamento ultrassecreto do Serviço da Liga Terrana (STL).
O departamento foi fundado em meados do século 13 NCG, em decorrência do aumento das tensões políticas e militares entre os blocos de poder da Via Láctea.
Sua tarefa era treinar assassinos altamente qualificados — os chamados “matadores de reis” — que assassinariam líderes de governos inimigos quando necessário.
O Departamento Zero foi dissolvido novamente durante o governo de Paola Dashmagan.
Em DORGON:
O chefe do departamento chamava-se Walter Reichmann. Pouco se sabe sobre ele, exceto que aparentemente pertencia a um círculo de apoiadores de um Império Lemurense e envolveu Mordred em operações secretas do Departamento Zero.
Pesquisas brutais foram conduzidas em um asteroide no Sistema Solar. Os híbridos foram criados para funcionar como supersoldados. Ironicamente, o próprio agente do STL, Monkey, tornou-se uma vítima e perdeu a visão no processo. Monkey conseguiu escapar e relatou o ocorrido a De Moleon, que inicialmente manteve silêncio sobre o assunto e não informou o público por razões de segurança nacional. Contudo, as maquinações não permaneceram ocultas da Primeira Terrana. Embora Daschmagan compartilhasse da opinião de De Moleon, ela baniu o Departamento Zero no outono de 1283 NCG.
Monkey
Monkey antes de perder a visão por (C) Raimund Peter.
Da Perrypedia:
Monkey (nascido em 29 de janeiro de 1243 NCG em Oxtorne) é um oxtornense treinado em serviços de inteligência.
Segundo ele próprio, “Monkey” não é um apelido ou pseudônimo, mas sim o nome que seus pais lhe deram. Ele está convencido de que o significado desse nome em uma antiga língua terrana, da qual ele próprio só tomou conhecimento muito mais tarde, era desconhecido para seus pais. Não há mais informações disponíveis sobre a família de Monkey, sua infância e juventude.
Monkey pertence ao povo oxtornense. Ele tem 1,99 metro de altura e a largura de seus ombros é de 1,20 metro. Ele não tem pelos no corpo (como todos os oxtornense) e tem pele cor de oliva. Ele pesa mais de 750 kg. Em vez de olhos, ele tem dois implantes de olhos de câmera artificiais SAC de cor antracite. (PR 2512)
Ele é um solitário, reservado, taciturno, frio e completamente sem senso de humor.
O agente da STL:
Como todos os oxtornenses, Monkey era uma máquina de combate ambulante, graças ao seu metabolismo adaptado a um ambiente extremo. Como membro do Serviço da Liga Terrana, ele fez parte, durante algum tempo, do infame Departamento Zero. Segundo seu próprio relato, ele nunca foi enviado para o campo de batalha, mas o treinamento para ser um assassino deixou marcas nele. Desde então, o Monkey sonha em matar todas as noites.
Durante seu serviço militar, Monkey sofreu um grave acidente, sobre o qual não falou com ninguém. Ele perdeu os dois olhos neste acidente. Devido ao seu metabolismo oxtornense extremamente resistente, não foi possível compensar a perda com réplicas biologicamente equivalentes. Em vez disso, Monkey agora usava dois implantes de olhos de câmera artificiais. Esses eram produtos personalizados do STL, compostos por SAC e fabricados em Swoofon. Esses olhos artificiais permitiam que o Monkey alternasse entre a visão normal e os modos de telescópio, microscópio ou infravermelho. Um módulo de memória com capacidade de armazenamento de aproximadamente 2.000 dias foi conectado às lentes. Monkey poderia, portanto, recuperar e visualizar eventos vistos anteriormente nesse período, se necessário. Em caso de falecimento, o acesso externo à sua memória também seria possível, naturalmente.
Pouco depois de perder a visão, Monkey sofreu outro golpe do destino que o atingiu com igual força. Quando voltou para casa pela primeira vez após receber alta da clínica e visitou seu okrill Shaker, que havia deixado em um grande cercado, o animal não o reconheceu mais como seu dono — um caso único na história de Oxtorne. Monkey não teve outra escolha senão libertar Shaker.
Quando o distrito de Alashan, em Terrânia, foi realocado para DaGlausch em outubro de 1289 NCG devido a uma sabotagem no baluarte heliotiano, Monkey estava na Torre STL e participou da transferência.
Em abril de 1290 NCG, Monkey deixou Alashan em nome de Gia de Moleon. Junto a outros dois agentes do STL, ele acompanhou Perry Rhodan, Reginald Bull, Mondra Diamond e Tautmo Aagenfelt até Zophengorn. Sua tarefa era garantir que a expedição não violasse os interesses da nação Alashana.
Sob o signo de Thoregon:
No final de julho de 1290 NCG, Monkey era um dos 1.000 agentes do STL com os quais Perry Rhodan recapturou os SEIS DE THOREGON de Shabazza no Século I. Quando o nave-haltere chegou no dia 21. Monkey também fazia parte da nova tripulação quando August DaGlausch partiu com destino a Gorhoon. Durante o voo, ele foi nomeado chefe do departamento de operações estrangeiras com a patente de tenente-coronel.
Em DORGON:
Em 1283 NCG, Monkey se torna vítima de uma conspiração do seu próprio Departamento Zero. Ele deveria ser geneticamente modificado, mas consegue escapar. No entanto, ele perde a visão. Como resultado, o Departamento Zero é fechado.
Sco-Chii
Sco-Chii vem do povo heeninniyense, mais conhecido como peepsies. Ele é um intermediador de informações na BASE e entende do assunto.
Em 1290 NCG, ele é resgatado primeiro dos agentes Mordred por Sam e depois por Will Dean. Em troca, Sco-Chii revela algumas informações sobre as conexões entre os Mordred e os Guardiões Galácticos. Para protegê-lo de novos ataques, ele é levado da BASE para um local seguro por Sam Tyler e Japar.
Kellonda
Kellonda é uma mehandor. Ela está vestindo um uniforme de fantasia com medalhas de plástico. No ano de 1290 NCG, ela ajuda Sam, Tyler e Japar a obter informações sobre a BASE. A saltadora é desajeitada, barulhenta e guarda rancor de Japar, com quem ela costumava ter um relacionamento romântico.
Ela presume que Sam seja um traficante de armas e espera obter um bom lucro com isso.
1 Nota do tradutor: Fence = Cerca, em inglês. No âmbito da série, o Inglês e outras línguas “mortas” da Terra são usadas e/ou conhecidas apenas por alguns imortais. Por isso, quando querem demonstrar uma operação ou programa importante, são dados nomes em inglês ou outra língua morta terrana. Por exemplo, operação CILADA.
2 Nota do tradutor: para uma descrição atual e detalhada de Monkey, vide PR2714 © SSPG. https://www.perry-rhodan.net.br/loja/index.php?route=product/product&path=63_94&product_id=1007
3 Nota do tradutor: oficialmente, Monkey sofreu um grave acidente durante o serviço, e nunca quis falar com ninguém sobre o que aconteceu com seus olhos. Então, por que não? Dorgon criou sua própria versão!